Uma equipa liderada pela doutora Yohannes Haile-Selassie, do Museu de #História Natural de Cleveland, anunciou esta quarta-feira, dia 27, através da revista Nature, a descoberta de um novo antepassado humano, designado Australopithecus deyiremeda. Um contemporâneo da espécie de 'Lucy', o Australopithecus deyiremeda já levantou algum debate sobre que animal teria sido, realmente, o antepassado da Humanidade. Conquanto a sua existência possa surpreender o público em geral, a realidade que representa não é necessariamente uma novidade para paleontólogos e antropólogos.

Os australopitecos eram um tipo de primata que viveu em África entre 4 a 2 milhões de anos atrás. Medindo cerca de 1 metro de altura, eram animais relativamente pequenos quando comparados com os humanos modernos, mas foram extremamente importantes para a história da humanidade, uma vez que tudo indica que teriam sido os seus antepassados. Característica extraordinária destes animais era o facto de que caminhavam eretos, ao contrário da maioria dos grandes primatas que se movimentam curvados, apoiados nas mãos. Esta era uma adaptação para a vida nas grandes savanas que cobriam a maior parte de África nessa época, e libertava as mãos para transportar objetos e criar ferramentas, elementos essenciais na evolução humana.

Talvez um dos exemplos mais conhecidos deste género de animais seja o fóssil alcunhado de "Lucy", um Australopithecus afarensis que viveu no Nordeste africano há 3,4 milhões de anos atrás, cuja descoberta, em 1974, levantou um grande burburinho entre os media. O exemplar foi descrito como "a mãe da Humanidade", uma vez que se pensou que a sua espécie seria a antecessora direta de outros hominídeos, como o Homo habilis. Contudo ela não existia só, coabitava com toda uma quantidade de outros hominídeos primitivos, como prova o fóssil descoberto na Etiópia em 2011.

Um conceito básico da biologia é o de "especiação", isto é, a transformação constante de espécies mais antigas em novas, que se dá ao longo dos tempos e que é uma das pedras basilares da teoria da evolução. É assim expectável que possam coexistir muitos animais similares após a ascensão de um antepassado bem-sucedido. E isso sucedeu com os hominídeos primitivos. É conhecida uma dezena de tipos de australopitecos e parentes próximos que existiram mais ou menos ao mesmo tempo, pelo que a nova descoberta não é realmente revolucionária, apesar de ser entusiasmante. Contudo, complica a referida ambição de descobrir qual teria sido, realmente, a linhagem da humanidade.

Também convém ter em conta a noção de que o surgimento de novas espécies e adaptações se constrói com base em adaptações passadas. Por exemplo, os vertebrados terrestres possuem todos quatro membros porque era esse o formato dos primeiros animais que viveram em terra, tendo os seus descendentes partilhado esse formato desde então. #Natureza #Curiosidades

Este último facto é importante para compreender a outra descoberta revelada esta semana. Uma equipa liderada pela Doutora Sonia Harmand, da Universidade de Stony Brook, revelou ferramentas com 3,3 milhões de anos, cerca de 700 mil anos anteriores ao que se conhecia até agora. A descoberta indica que o uso de ferramentas antecede o surgimento do género Homo, e que seria muito crude nas suas origens. Já se especulava que elementos da linhagem dos australopitecos teriam utilizado ferramentas, mas faltavam provas diretas. Depreende-se assim que esta característica da humanidade se teria desenvolvido por um longo período de tempo.