Uma equipa de investigadoras das Universidades de Coimbra (UC) e Évora anunciaram a descoberta, em Estremoz, de três esqueletos da Idade Média a quem foram amputados os pés e as mãos, segundo a hipótese levantada, como forma de punição judicial. O Diário de Notícias cita um comunicado de imprensa enviado pela UC à Agência Lusa, esta segunda-feira.

O resultado da investigação foi publicado no Journal of PaleoPathology, o jornal oficial da Paleopathology Association. Esta organização, fundada em 1973 nos Estados Unidos, reúne especialistas e investigadores em paleopatologia - o estudo de doenças históricas, antigas ou detectadas em tempos históricos, em seres humanos ou animais.

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De acordo com o comunicado, os esqueletos correspondem a três homens, entre os 18 e os 35 anos. As ossadas foram descobertas durante "escavações efetuadas em 2001 no cemitério medieval do Rossio do Marquês de Pombal, em Estremoz", uma infra-estrutura dos séculos XIII e XV. As investigadoras classificam a punição como "perimortem", isto é, pouco antes da morte; o Diário de Notícias não aponta se a morte terá sido causada directamente pelos ferimentos ou se os três homens terão sido executados depois da aplicação desta pena.

A dra. Eugénia Cunha, Professora Catedrática de Antropologia da UC (Departamento de Ciências da Vida, da Faculdade de Ciências e Tecnologia) sustenta que "os cortes foram intencionais" e "aplicados como forma de castigo violento". Os esqueletos foram encontrados lado a lado, sendo que as mãos e os pés decepados foram enterrados junto dos cadáveres, tendo sido encontrados em conjunto.

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Ainda de acordo com o Diário de Notícias, o artigo sugere que os cortes foram feitos com um só golpe, presumivelmente através de uma arma afiada e relativamente pesada, como "uma espada ou um machado".

Uma melhor compreensão dos castigos da época

O folclore e o senso comum, baseados num conhecimento genérico de instrumentos de tortura e de relatos escritos, apontam que a Idade Média (bem como a Antiguidade Clássica, antes, e sem dúvida a Idade Moderna, depois) era um tempo em que a aplicação de castigos se revestia de maior violência e severidade do que na actualidade. Esta percepção histórica é, de resto, uma componente presente no debate que se faz actualmente, quer entre os activistas dos Direitos Humanos, quer entre os proponentes da reinstauração da pena da morte ou outro tipo de castigos.

A descoberta da equipa portuguesa vem, de certa forma, reforçar mais um pouco esta ideia. O artigo aponta que a presença de "castelo e tribunal real" em Estremoz "sugerem a necessidade de práticas punitivas", e que a profanação do corpo teria um significado social específico nas sociedade medievais, acrescendo à ideia de terror que pretendia induzir, como dissuasor.

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É de salientar que o trabalho das investigadoras está sujeito a avaliação por pares e poderão surgir teorias contraditórias no futuro ou que apontem para factos um pouco diferentes; o artigo foi publicado no Journal of PaleoPathology no passado dia 9 de Junho. Contudo, até ao momento não se conhecem contestações ou refutações das conclusões principais. O Journal of PaleoPathology é de acesso restrito, sendo necessário comprar o artigo das investigadores portuguesas para ter acesso através da internet. O valor é de $31,50. #Arqueologia #História