Enquanto se afirma a "política do betão", os novos achados arqueológicos acrescentam a cada passo sentido à #História que é rica em Portugal. Na avaliação do amuralhado do castelo de Montemor-o-Velho, o arqueólogo Marco Penajoia identificou recentemente vários vestígios históricos presentes nos elementos pétreos e nos revestimentos em argamassa. 

O grafito de uma embarcação reforça o ciclo de navegação no Baixo Mondego que acontecia desde a Figueira da Foz ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Este achado, de importância fulcral, contribui para o enriquecimento patrimonial de todo o território da antiga linha defensiva do Mondego, acrescentando-lhe dados relacionados com a arqueologia, navegação, religião e etnografia. Esta embarcação questiona, assim, o cariz náutico em combinação com o mundo dos ex-votos. 

Ou seja: apesar de Montemor deter uma apetência portuária de referência, o grafito não pode associar-se apenas à navegação que foi significativa no território. Neste âmbito recordamos que, no século XI, a peregrinação para Santiago de Compostela, por via marítima, passaria por Montemor. O contexto religioso, nomeadamente os ex-votos, é não menos relevante no que concerne ao agradecimento à divindade pelo salvamento dos perigos do mar.

Os vários grafitos de embarcações registados em edifícios históricos, nomeadamente no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha (Coimbra), serviram de paralelos a este estudo. Morfologicamente, o referido grafito caracteriza-se por ser uma embarcação com tipologia similar a uma barca medieval. 

Surgiram ainda, à luz da investigação, outros traços históricos conservados nas muralhas, quer elementos pétreos como é o caso de inscrição árabe e marcas de canteiro, quer revestimentos de argamassa com conjunto esquemático de grafitos composto por marcas geométricas, um guerreiro e um zoomorfo.

A inscrição árabe é essencial, dada a sua especificidade e raridade no território. Apesar de se encontrar num elevado estado de erosão, conseguiu-se com o apoio de investigadores nacionais e internacionais, chegar à seguinte tradução: “Isto foi escrito por Aṣnā’ (ou Aḍyā’)”. Trata-se de um antropónimo árabe que era comum ser processado em diversas cronologias e que reforça a presença muçulmana no território, assim como o grau de remodelações arquitectónicas sofridas desde o período da reconquista.

Não podemos esquecer, ainda, o conjunto esquemático que revela um guerreiro medieval com toda a sua indumentária associada, um zoomorfo e também vários símbolos de índole protectora. O guerreiro apresenta adereços específicos de feição militar como um “elmo”, um escudo tendencialmente triangular, uma espada embainhada e uma loriga ou cota de malha. Tanto este grafito como os símbolos geométricos podem estar relacionados com a protecção do amuralhado - signos ideológicos e mágicos, no sentido de amuletos ou talismãs.

Quer a embarcação quer o guerreiro, denotam características medievais. São marcas que podem atestar os ritmos do quotidiano de quem construía, permanecia ou defendia o amuralhado do castelo. Estas identificações não vêm somente acrescentar caudal científico ao que já se conhece, como irão dinamizar a historiografia do Baixo Mondego, pois demonstram aspectos raríssimos nesta região, introduzindo uma nova leitura histórica.

Marco Penajoia, activo colaborador do CITEC – Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho em Montemor, pretende criar um programa de novas visitas e novos olhares sobre esta realidade. Mestre em Arqueologia Territorial, investigador na Universidade de Coimbra, estuda Montemor-o-Velho há vários anos, estando à frente do projecto Pedras Falantes que integra o novo modelo de visitação ao Castelo de Montemor-o-Velho. As visitas ao castelo arrancaram este ano, com a leitura da paisagem a partir das muralhas para se perceber a dinâmica do Mondego relacionada com o mundo fenício, romano e medieval. #Curiosidades #Artes