Há o Sérgio Godinho de 'Com um Brilhozinho nos Olhos' ou 'Espalhem a Notícia' que narra, através da #Música, episódios de amor. E há o Sérgio Godinho porta-voz de manifestos político-sociais, que se escuta em 'Que Força é Essa?' ou 'Liberdade'. Existe, ainda, o Sérgio Godinho que assina #Livros de poesia ou peças de teatro. E, após o lançamento de 'Vidadupla' em Outubro passado, descobriu-se um Sérgio Godinho autor de contos. Mas o que têm todos estes Sérgios em comum? A resposta é que todos são contadores de estórias. E, de acordo com o próprio, vítimas de um "acto que é intuitivo": a vontade de criar.

Na última sessão de apresentação do livro 'Vidadupla', que decorreu ontem, pelas 21h45, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, o músico deixou claro que "a criatividade tem momentos misteriosos" e aspectos que nem sempre se podem explicar.

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Sem descartar a possibilidade de ser um escritor "mais naturalmente de fôlego curto", Sérgio Godinho constata que o conto foi o formato "coerente com aquilo que tinha para contar" e o que "se impôs". O último livro, editado pela Quetzal, corresponde à sua estreia no género. E, ao contrário do que o seu parceiro de apresentação - Francisco José Viegas - propôs, Sérgio Godinho garante que não surgirão novas canções baseadas nas estórias do livro. A plateia ri, mas o autor não cede.

Elencados em 'Vidadupla' estão nove contos protagonizados por homens e mulheres sem nome, em locais igualmente anónimos. Toda a acção decorre, assim, no que Sérgio Godinho diz ser "o território abstracto a que todos pertencemos". Comum a todas as estórias é, ainda, a existência de "um momento transformador" na vida das respectivas personagens, aspecto que o autor diz ser inspirado nos acontecimentos e decisões que cada pessoa tem que assumir no mundo real.

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"Há momentos em que todos nós damos por outra vida, que nos chamam para outra coisa", desde "seguir uma paixão" ou "uma perspectiva de mudança de emprego", exemplifica o escritor.

Entre o conto e a canção

Embora Sérgio Godinho se tenha popularizado enquanto cantor de intervenção, o músico confessa que não conseguiu confinar-se apenas a esse universo. Ainda na mesma sessão de apresentação em Viana do Castelo, disse gostar de "arriscar" e de percorrer "terrenos novos" que, desta vez, o levaram ao formato conto. Mas em que medida o processo criativo muda ao narrar-se a estória de uma personagem através da prosa? Seria possível uma personagem como Etelvina, imortalizada na canção de 1974, existir em conto? Diante de uma sala quase cheia, Sérgio Godinho considera que "tudo pode ser contado das duas maneiras", embora de uma forma forçosamente diferente.

Tal como o músico salienta, "a canção obedece a regras" próprias, já que o texto e a mensagem têm que ser compatíveis com "a rima, a métrica, a música".

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E é precisamente pela base musical que Sérgio Godinho garante começar a construção de muitas canções, sendo que, por norma, "as palavras aparecem depois". Já no formato conto, onde elas assumem o papel principal, o autor diz ter outra liberdade para "deixar em aberto" as narrativas.

Embora diferentes a seu modo, Sérgio Godinho reconhece haver uma certa analogia entre o conto e a canção, na medida em que "há uma certa arte de concisão" comum a ambos os formatos. Mas entre os mistérios que a arte de escrever um livro ou compor uma música lhe proporcionam, há uma certeza que abala Sérgio Godinho, ao final de quase uma hora e meia de conversa: "Não vivo se não criar e não crio se não viver".