O negócio da neve teve início em Portugal na era filipina. Mas foi no século XVIII, no reinado de D. José, que esta aposta se tornou mais séria. D. José entregou a "pasta" de neveiro-morJulião Pereira de Castro. Tais funções levaram a fixar-se por longos períodos na aldeia de Santo António da Neve, que se localiza na freguesia do Coentral, concelho de Castanheira de Pêra, na Serra da Lousã. Este lugar foi a "capital" portuguesa do fornecimento de neve.

Julião Pereira de Castro, ao serviço de sua majestade, construiu a sua casa naquela localidade na década de 70 do século XVIII (e apesar do estado de degradação, o edifício ainda existe). Na década seguinte fundou 7 poços de xisto, que tinham como objectivo guardar a neve recolhida (pode-se dizer que eram os frigoríficos da altura).

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Para simplificar o trabalho, fizeram-se, em redor dos poços, buracos nos quais a água se infiltrava, transformando-se posteriormente em gelo.

Para a tarefa da recolha da neve, contratavam-se por dia várias pessoas das terras vizinhas (aldeias do Coentral, Povorais e Pena). Estas pessoas de campo tinham até então uma forte e quase exclusiva dependência do exigente trabalho agrícola. Com esta oportunidade, surgia assim mais uma fonte de rendimento... bastava que nevasse. 

Quando os poços estavam cheios, com o intuito de preservar a neve, cobria-se com fetos e palha. Chegando a época quente, a neve inserida nos poços era dividida em grandes pedaços, e de seguida era colocada em cofres de madeira, enrolada na palha. Seguia-se então uma longa viagem. Até Constância, o meio de deslocação era o carros de bois.

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Chegando aquele lugar, o almoxarife testava a qualidade do gelo. Se não houvesse qualquer impedimento, a viagem continuava, desta vez através de barca. Atravessando o rio Tejo, chegava-se ao destino final: Lisboa, Paços do Concelho (o que conhecemos por Terreiro do Paço). Quem recebia o gelo na capital era o neveiro-mor e a sua esposa. Ali era vendido para a Casa Real, bem como para vários estabelecimentos, sendo de realçar a  "Casa da Neve" (atualmente designada de São Martinho da Arcada), que o convertia  em gelados



Julião de Castro fica ainda associado por fundar, perto dos Poços uma pequena capela em homenagem a Santo António. É a partir desse acontecimento que a aldeia passa a ser chamada a partir de então de "Santo António da Neve". Atualmente ainda existem 3 poços conservados. Pela sua relevância, são considerados espaços de interesse público. Naquela localidade realiza-se uma série eventos que pretendem recordar este grande momento da história da terra, mas também do país. É de destacar as iniciativas que recriam o transporte do gelo, e ainda a Festa anual do Santo António da Neve e os Encontros dos Povos da Serra.