Jon e Alex, dois homossexuais de 25 anos num momento de intimidade em São Petersburgo (Rússia), são os protagonistas da foto do ano 2014, segundo o World Press Photo. Este é o mais importante concurso de fotografia do mundo. O autor é o dinamarquês Mads Nissen, que conseguiu captar "uma imagem esteticamente poderosa e com humanidade", nas palavras de Michele McNally, presidente do júri e directora de fotografia do New York Times. Publicada pelo diário dinamarquês Politiken, é o resultado do trabalho de Nissen sobre a homofobia na Rússia, país que aprovou em 2013 uma lei que proíbe "a propaganda de relações sexuais que não sejam tradicionais".

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Nissen esteve dois anos em solo russo para documentar os problemas enfrentados pelos homossexuais. Visitou clubes e foi testemunha da violência com que eram reprimidos pelas forças da ordem em plena rua. Licenciado em jornalismo gráfico, o danês trabalhou também dois anos em Xangai, observando as repercussões sociais e humanas do crescimento económico chinês. As suas fotos apareceram em publicações como a Time, Newsweek, Der Spiegel ou Stern.

Num ano como 2014, marcado pela epidemia do ébola, a guerra na Ucrânia e a tragédia do voo MH17, entre outros conflitos internacionais, o retrato vencedor foi eleito "porque não faz falta ir para a guerra para ganhar o World Press Photo", afirmou Donald Weber, fotógrafo canadiano e membro do júri. "Também há maneiras subtis de abordar assuntos complexos e a homofobia é um problema grave na Rússia", acrescentou.

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"Os terroristas usam imagens horrorosas para chamar a atenção. Com subtileza e intensidade podemos oferecer uma mensagem mais meditada", advertiu a sua colega Pamela Chen.

O holandês Lars Boering, novo director do concurso, espera convertê-lo num "centro de pensamento do jornalismo gráfico", daí que tenha sido escolhida uma foto sobre o amor: "é uma declaração de intenções". "Não pensamos transformar-nos em activistas, mas vamos participar nos debates. Durante demasiado tempo, o World Press Photo foi uma organização neutra, algo que já não se entende neste momento", afirmou.

À chamada de 2014 apresentaram-se 97.912 imagens de 5.692 fotógrafos procedentes de 131 países. Em 2013, mudaram as regras de selecção, para evitar retoques nos instantâneos. O vencedor de 2012, o sueco Paul Hansen, foi acusado de montar várias fotos até conseguir o efeito desejado: comover o espectador perante um grupo de adultos desesperados, em Gaza, com cadáveres de crianças nos braços. A investigação levada a cabo pelo júri só encontrou "retoques na cor" e descartou a hipótese de fraude.

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Superado este incidente, a competição decidiu ampliar a oferta em 2014, abrindo-se a Projectos de Longa Duração, compostos por uma colecção de 24 a 30 fotos, tiradas ao longo de três anos, em que pelo menos quatro deveriam ter sido tiradas ou publicadas, no ano passado. O poder de atracção da nova proposta foi enorme, porque reconhece um trabalho completo. Ao todo, apresentaram-se a esta secção 14.583 imagens que compõem 510 histórias gráficas. A vencedora foi a norte-americana Darcy Padilla, pela sua galeria sobre "a história completa da família de Julie Baird, na qual há pobreza, sida, toxicodependência, mudança de domicílio, diferentes companheiros, nascimentos, mortes, perdas e reencontros".