"Não digam a ninguém e deem o prémio a outro", proferiu Herberto Helder para os júris do Prémio Pessoa em 1994 quando foi galardoado com prémios. Não gostava de entrevistas, nem de ser fotografado. Tinha por hábito encadernar os seus #Livros com papel de embrulho castanho e foi homem de vários ofícios e profissões. Desde angariador de publicidade em Portugal, a bibliotecário, tendo também abraçado a profissão de jornalista, Herberto Helder viveu sempre na sombra. Morreu ontem de manhã aos 84 anos, na sua casa em Cascais.

O "poeta oculto" nasceu no Funchal em 1930, e em 1958 publicou o seu primeiro livro, O Amor em Visita.

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Personalidades como Luiz Pacheco, Mário Cesariny ou João Vieira fizeram parte da sua vida no círculo modernista do Café Gelo, no Rossio. Viveu em diferentes países, como França, Holanda e Bélgica, tendo uma passagem clandestina pela Antuérpia - em Passos em Volta, de 1963, o poeta revisita essa experiência e tantas outras -, regressando a Portugal em 1960 para trabalhar na Fundação Calouste Gulbenkian como encarregado das bibliotecas itinerantes. Os livros criaram o seu legado, mas sempre na sua sombra.

Fez tanto e tanto, figurado nas suas palavras, entre a realidade e ficção, que flutuavam em obras como Poesia Toda, de 1973, ou Photomatom & Vox de 1979. Foram 60 anos de edição, que criaram um imaginário, dentro do mundo da poesia que muitos simbolizariam como único, tal como a escritora Maria Velho da Costa declarou ao jornal Público: "Morreu o maior poeta português depois de Luíz de Camões".

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Todos os seus livros possuíam apenas uma edição e esgotavam logo que eram lançados. O seu último livro, "A Morte sem Mestre" (2014), um ano depois de "Servidões" (2013), definiu assim "tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional" - "[……] peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido/seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro".

Ficou a morte, mas também o mestre e nós, leitores impuros, com as 'cabeças estremecidas'.