No livro De Nápoles a Jerusalém (Diário de viagem) deixamo-nos envolver pelas aventuras de Maria Celina de Sauvayre da Câmara, uma viajante madeirense que descreve a arte e o património descobertos em expedições pelo Oriente. A autora compara sempre o que aí vê com memórias de jornadas anteriores realizadas pela Europa de finais do século XIX.

O livro desta neta da poetisa Viscondessa das Nogueiras, publicado pela Imprensa de Libânio da Silva em 1899, é inédito no sentido de ser o único da autora pouco ou nada estudada. Espelha, também, a vida e postura das mulheres ocidentais emancipadas, em contraste com as orientais ainda escravas adornadas pelos amos (como a autora descreve).

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Membro de uma das famílias mais ricas e importantes da época, e muito à frente do seu tempo, Maria Celina de Sauvayre da Câmara passa a vida a viajar sozinha (ou com uma amiga), ingressando em excursões organizadas por agências que são inéditas à época percursora do turismo.

A autora escreve este único livro dedicado à avó poetisa que a educa. Nele expressa o espírito aventureiro de senhoras independentes, como ela própria - o que pode ser frequente (ou mais constante) no seio da classe média de uma Europa Ocidental lavada por onda feminista. Não é, porventura, costume encontrar mulheres com tal arrojo e espírito livre no mundo conservador português de então. Muito menos a viajarem sozinhas sem marido, pai ou irmãos que as protejam.

A ousadia de uma senhora portuguesa viajar sozinha pelo Oriente (seja qual for esse oriente), ou mesmo viajar com uma amiga, pernoitando em quartos separados, é uma atitude avançada para a época e digna de admiração ou espanto.

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Nem sequer viaja apenas para circuitos europeus ditos civilizados, mas, também, para paragens exóticas onde o desconhecido pode ser um entrave, apesar da autora se valer de guias e programas de agências de viagens fidedignas e na moda.

Maria Celina lamenta a inexistência de portugueses (em particular, de senhoras) que, raramente, viajam e menos se aventuram por itinerários fora dos circuitos europeus. Em contrapartida, não faltam senhoras estrangeiras a escrever sobre viagens que realizam pelo mundo inteiro. #Livros