A preocupação com o registo de dados pessoais remonta ao longínquo século XVI. De forma a conhecer todos os elementos que embarcavam nas naus para os grandes Descobrimentos, eram apontados o nome, alcunha, estado civil, filiação e origem dos marinheiros. Mas foi em 1914, que o bilhete de identidade ganhou forma. Esta medida foi desenvolvida porque se percebeu que era preciso ter um registo dos cidadãos, dado o crescimento em grandes dimensões da população urbana, e eram necessárias igualmente informações sobre óbitos.

Nas primeiras décadas da sua existência, o bilhete de identidade era composto por 3 páginas. Os dados eram preenchidos à mão. Para além dos dados "normais" como a estatura, impressão digital ou fotografia, existiam outras referências, como, por exemplo, a cor do cabelo e da barba. #História #Curiosidades

O Presidente da República portuguesa (primeiro em termos constitucionais), Manuel de Arriaga, estava no "lote" dos primeiros portugueses a ter o bilhete de identidade, estando o seu documento atualmente no Museu da Presidência da República. Apenas 5 anos depois da sua criação, o documento podia servir como "cartão de visita" oficial em algumas ocasiões. Nessa época, o bilhete de identidade português tinha o prazo de cinco anos e era um dos mais inovadores no continente europeu.


Em 1926, a polémica estalou. O bilhete de identidade passou a ser obrigatório para os funcionários públicos. Para além destes trabalhadores terem que despender 50 escudos (uma fortuna para aquela época) pela emissão do referido documento (se não o fizessem, não receberiam o seu salário no fim do mês), eram agora confrontados com as impressões digitais e as fotografias, métodos que eram até então usados para o reconhecimento de reclusos e mortos. Os trabalhadores não gostaram da medida.


De acordo com Maria Rita Lino Garnel, investigadora do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. este documento pretendia "(...) cruzar o registo criminal com o registo civil. O Estado queria ter um papel mais vigilante", Porém, este não foi o único objetivo. Este documento permitia que o Estado português conseguisse aquilo que desejava: separar o poder político do poder da igreja. Acontecimentos como o batizado, casamento ou funerais, deixavam de ter só um significado religioso, passando a existir também um valor civil. Apesar de tudo, a informação inserida no bilhete de identidade não era totalmente fiável, nem profunda. Situação que só se alterou a partir da década de 50.


Noutros tempos, o bilhete de identidade era guardado com especial cuidado."As pessoas tinham muito medo de o perder, por isso guardavam-no com cuidado", revelou à Revista Sábado, a professora aposentada, Maria Rosalina Pais. Em 1952, as impressões digitais no bilhete de identidade passaram a ser diferentes para quem vivia nas colónias portugueses. A partir de então era necessário colocar-se não um, mas sim... os 10 dedos para obter as impressões digitais.


Em 2007, foi extinto em Portugal o Bilhete de Identidade. No seu lugar foi introduzido o Cartão de Cidadão. Um documento também de caráter obrigatório.