Parece-nos que a fotografia de Rita Moniz foi captada casualmente, mas o pensamento não se desprende da imagem que ilustra uma rua de Matosinhos não identificada. A passadeira é observada de um plano superior e, quem conhece o crescimento urbanístico veloz em Matosinhos, imagina a autora da obra fotográfica num possível prédio junto à marginal antes povoada por indústria conserveira. Esta é apenas uma das 50 fotografias selecionadas, de entre mais de duas mil candidatas, que estarão patentes na exposição da galeria Mira Forum até 13 de junho. São imagens que se distinguiram no MIRA Mobile Prize - um prémio de fotografia mobile internacional, organizado pela referida galeria situada junto à estação de Campanhã, no Porto.

Publicidade
Publicidade

Os trabalhos apresentados, sob o tema "Ruas do Mundo", representam a multiplicidade de linguagens da fotografia, sendo eleita a melhor imagem mobile (captada e editada por dispositivos móveis) a de Brendan Ó Sé. Alusiva também a percursos reais e imaginários, nela, a autora docente de Inglês na UCC, "redesenha" com o iPhone 6 uma série de caminhos marcados por linhas ondulantes, semiparalelas, que contornam os transeuntes, luminárias de rua e outros obstáculos. Tal como na fotografia de Rita Moniz, os traços a branco parecem flutuar, sugerindo um movimento serpenteante em Hollywood ou Berlim.

A fotografia de Rita Moniz transmite, à primeira vista, uma ideia do quotidiano comum, acabando por carregar uma mensagem forte, na medida em que evoca o passado da cidade a cada passo insinuado pela modelo que se abriga (ou esconde) por debaixo de um guarda-chuva às riscas. Riscas vermelhas iluminando um céu cinzento de chuva, riscas brancas já sujas, pisadas, em chão incerto. A passadeira está algo suspensa no ar, tendo como chão um qualquer 'sfumato' que lembra vegetação e onde existem marcas de tampas de esgoto.

Portanto, um fundo trabalhado simultaneamente gráfico. Trata-se da relação entre tempos que esta designer de 26 anos apura, levada pela paixão que a fotografia suscita. Pensamos que a modelo da foto contempla o horizonte por se encontrar numa terra de mar. É que a passadeira por onde vai não foi pintada no asfalto, quase levita (relembramos), como se fosse um tapete voador. A modelo segue, afinal, ao encontro de todos os sonhos que estão onde fica esse mar invisível e o próprio infinito. Pura imaginação. #Curiosidades #Artes

Aconselhamos, vivamente, uma visita à galeria Mira Forum que vale não apenas por esta e outras mostras aí patentes, mas pelo espaço de três armazéns comunicantes afortunados pela recuperação exemplar que não lhes roubou a alma. As opções tidas nesta obra estrutural permitem-nos recuar no tempo até aos primeiros anos do século XX, aquando da construção dos 11 armazéns em série onde estes três se integram. A recuperação é, por si só, uma obra de arte da arquitetura. Que sirva de exemplo!