Como alternativa à crise instalada e aos valores excessivos que se praticam no mercado da arte, Maria Marinho Edgell criou recentemente uma coleção de peças artísticas recortadas em branco sobre branco. Trata-se da busca da interioridade, insinuada na recriação de órgãos humanos que relevam uma topografia particular e chegam a mais baixos preços às mãos dos apreciadores e colecionadores de arte. Assim, num registo próximo dos mapas topográficos, a pintora estuda alguns órgãos vitais que recorta e modela numa atitude científica comparável à de Leonardo da Vinci quando dissecava cadáveres à luz de velas. Tudo pela disseminação do conhecimento e na crescente busca de respostas.

Publicidade
Publicidade

E, não por acaso, esta fase está ligada a um qualquer renascimento de Maria Marinho Edgell que é também cientista por paixão. Deste trabalho de rigor e paciência resultam curvas de nível em branco no branco, e raramente com apontamentos de cor, sobre papel de aguarela. Estas aplicam-se a um coração aclimatado ao desenvolvimento emocional, a um cérebro como símbolo das espécies e comportamento humano, a um útero como berço evolutivo ao longo dos tempos (entre outros órgãos) que sugerem a reflexão constante.

Cada órgão, cada sinuosidade, cada significado... um interior reflectido fora e sempre inspirado na geologia e topografia da Terra que nos rege e influencia como 'mater'.

A obra recente de Maria Marinho Edgell, neste caso de colagem em pequeno formato brota então do pensamento e da vontade de entender o funcionamento da interioridade, da máquina íntima, com vista a dar respostas ao quotidiano.

Publicidade

Os interesses da artista divergem entre as #Artes e ciências, repensando nesta fase recente a Teoria de Darwin, evolutiva, que se aplica à sociologia e psicologia. E sempre na procura da essência.

Maria Marinho Edgell frequentou o curso de pintura da ESBAP, tendo-se formado no Camberwell College of Art em Londres, onde iniciou a carreira. Artista do mundo, viveu entre Hong Kong, Londres, Nova Iorque e Porto, expondo e colaborando com várias galerias. É atualmente docente no CLIB.

Numa primeira fase das muitas que atravessa, trabalha a abstração e texturas inerentes à patina do património negligenciado, em telas de grandes dimensões, onde a escultura se insinua quase sempre. Estas peças privilegiam os tons pastel, relacionando-se com a técnica, a composição, o espaço em si e a indefinição da imagem. Posteriormente mergulha no cosmo, na astrofísica, emergindo agora nas entranhas do corpo humano. Resumindo: há que parar e repensar a nova energia, recriando porventura formas que não nos desviem do caminho da formação por falta de trabalho ou emprego.