Ana Carolina é a multi-instrumentalista por trás de shadoW. Depois de alguns projectos musicais, Ana sentiu a necessidade de se expressar de uma forma mais profunda e abstracta do que aquela que tinha feito até então. Assim sendo, em 2009 nasceu o projecto shadoW, uma one-woman-band, algo não muito comum exceptuando casos como Myrkur. Actualmente a viver no Brasil, Ana acabou de lançar uma campanha de crowdfunding para financiar o seu primeiro CD profissional.

Olá Ana. O projecto shadoW já existe há bastante anos, mas ainda não se materializou num lançamento profissional. Quais as grandes dificuldades que encontraste ao longo dos anos?

Comecei por gravar sozinha no meu quarto.

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Gravava com o que estava à mão. Cheguei até a gravar com uma guitarra com apenas 3 cordas. Foi então que comecei a pensar em gravar num estúdio profissional, com som de qualidade. Passei por muita dificuldade, não obtive ajuda de ninguém, a não ser das pessoas mais próximas, amigos e familiares que me apoiavam para que continuasse, para que não desistisse do meu sonho. Mas as dificuldades aumentaram. Foram várias as noites em que peguei na minha mochila, com o material que necessitava e ia para o estúdio de um amigo meu, o Baixatola, um dos estúdios mais antigos do Porto, gravar a voz, tudo o que precisava com os micros que tinha na sala. Inventava novas formas de gravar. Ficava madrugadas lá dentro sem nunca parar de cantar. Depois tentei entrar em contacto com vários estúdios, nunca encontrei o que realmente queria.

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Cobravam os olhos da cara para gravar uma simples #Música. Mas nunca deixei de gravar, mesmo que o som ficasse péssimo.

O facto de ser uma one-woman-band é devido à impossibilidade de não encontrares alguém que partilhe da mesma visão?

Exactamente. É difícil criar algo tão pessoal e partilhar com alguém de confiança. shadoW, para mim, é um projecto tão pessoal, tão íntimo que, fazer sentir o que sinto, passar essa alma, não é algo que queira transferir a alguém. Ou se tem essa alma ou não, é algo espiritual. Tentei várias vezes partilhar este mundo com músicos, eles achavam fascinante, brilhante mas não conseguiam executar o trabalho da forma que eu via, porque não era da técnica que se tratava, mas sim do sentir, e shadoW tem muitas emoções, tanto pesadas como leves, uma identidade própria.

És portuguesa mas escolheste ir para o Brasil, porquê? Esperavas encontrar mais condições favoráveis do que em Portugal?

Na realidade eu estava a passar por uma fase existencial bastante difícil.

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E depois em Portugal estávamos a viver uma crise económica que afectou bastantes jovens. Por essa razão também achei que o melhor seria vir embora, não só por causa da crise, mas também pelo negativismo. Embora ame de coração o meu país, sentia que estava a perder tempo. O que mais me aproxima de facto do Brasil são as minhas raízes familiares. A minha mãe é brasileira, os meus avós maternos também e a maior parte da minha família, que é muito grande, vive no Brasil. Por isso, essa aproximação sempre me deixou curiosa para conhecer mais sobre a cultura, esse mosaico de ideias diferentes e pluralismo cultural. Acho que o Brasil se destaca mesmo por esse multiculturalismo, o que ajuda a expandir a criatividade sem qualquer opressão. Então eu procurei uma lufada de ar fresco na minha música, criar e criar sem parar ideias, novas experiências, ao lado de mentes positivas. Precisava mesmo disso na minha vida.

Como descreverias o som de shadoW?

Não gosto de catalogar sons. Sinto que shadoW é bastante livre na criação, não gosto de me influenciar com bandas que ouço ou de imitar o que já foi feito. O que posso dizer é que é único, mas se tiver que descrevê-lo diria que é um soco de emoções que nos faz sentir como se estivéssemos num extremo, entre o céu e a terra. Anjos e demónios. Uma ferida que é constantemente limpa e curada. É único em cada composição. Gosto de explorar sons, tudo depende de como me sinto e do que procuro quando estou a compor.

Iniciaste uma campanha de crowdfunding em português. Não achas que se fosse inglês poderia ter um raio de alcance maior?

Eu criei uma em inglês que acabou por não alcançar o valor pretendido. Agradeço a todos que colaboraram e ajudaram. É verdade que o meu som é mais conhecido na Europa, aqui ainda não é tão conhecido. Neste momento estou no Brasil e, embora muitos não conheçam o meu trabalho, este é um país enorme e muitos não falam inglês. E não só pela campanha mas também para conhecerem o projecto.

Quais as expectativas para o futuro?

Que a minha constante busca valha sempre a pena, tanto interior como musical. Que o meu trabalho possa ajudar a transformar as almas que estão revoltadas, angustiadas, seja qual for o problema que a pessoa esteja a passar. Que possa haver uma ligação através da música, seja no Brasil, seja em Portugal, em qualquer canto do mundo existirá alguém que se vai identificar comigo. Tenho a certeza absoluta. E que possa criar e tocar muito livremente!