João Porfírio é fotojornalista, tem apenas 20 anos e, a par dos estudos, trabalha como freelancer para empresas e para alguns órgãos de comunicação social. Depois da tão falada exposição "Sempre Quis Ser", a próxima aventura é uma viagem ao Quénia, onde terá oportunidade de realizar uma grande reportagem no maior campo de concentração do mundo. O seu sonho? Ser contratado pela Reuters.

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ecorda que o gosto pela fotografia surgiu desde muito novo. Ainda no tempo da analógica "com aquelas maquinazinhas pequeninas", por entre passeios com a mãe, lembra-se de "tirar fotos a flores, pessoas, paisagens, monumentos, a tudo".

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Entretanto, aos 15 anos, recebeu a sua primeira máquina fotográfica "a sério" e, repleto de entusiasmo, foi fotografar um rally em Portimão que, inesperadamente, lhe abriu portas para a sua ainda curta carreira de fotojornalista. "Um fotógrafo que estava lá pediu-me para mandar as fotografias para o 'Barlavento', o jornal de Portimão. Eles gostaram muito das fotografias e uns dias mais tarde foram publicadas. Passados uns meses, consegui publicar a minha primeira foto em papel, de um campeonato mundial de ginástica rítmica, e acabei por ficar a trabalhar dois anos com eles".

Dois anos depois, aos 17, conquistou a carteira profissional de jornalista. Conta que, apesar de na altura já estar a trabalhar há dois anos para o jornal, foi um pouco complicado, uma vez que ainda não havia atingido a maioridade.

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Quando questionado sobre qual o sentimento de alcançá-la tão cedo, João afirma, sem hesitações, que não lhe traz praticamente "vantagens nenhumas". Explica que é um desperdício de dinheiro, uma vez que necessita de renovação e, apesar de ter acesso a documentos que um cidadão comum não tem, isso não lhe traz grande vantagem dado que é fotógrafo. Sublinha como único benefício o facto de, com este documento, poder entrar no perímetro de segurança quando vai fotografar um incêndio ou um acidente, por exemplo.

Em Setembro de 2013, com 18 anos, abandonou Portimão e rumou a Lisboa em busca dos sonhos, deixando para trás a sua terra natal e os que lhe eram mais próximos. Atualmente, frequenta o 2º ano do curso de Fotografia na ETIC, sem nunca deixar de ambicionar mais do que aquilo que o próprio lhe proporciona, vai traçando dia após dia o seu percurso extracurricular. Faz corporate, fotografias publicitárias, trabalha para o Correio da Manhã e para o Diário de Notícias (assim como para algumas revistas do social) como freelancer e, jamais indiferente às causas sociais do país onde vive, já desenvolveu uma série de trabalhos e exposições nesse âmbito.

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No passado mês de novembro viu exposto um projeto que deu muito que falar. Intitulada de "Sempre Quis Ser", a exposição consistia em fotografias a preto e branco que retratam pessoas sem-abrigo e os seus respetivos sonhos, perdidos pelas ruas da capital. "Sempre quis vir para Lisboa e, apesar da minha mãe ter feito pressão para lá ficar mais um ano, vim para cá precisamente com a intenção de trabalhar e evoluir mais. Lisboa abriu-me muitas portas. O pico da minha evolução foi conseguir expor no metro da capital do nosso país".

Recorda que foi complicado chegar ao pé de algumas destas pessoas e colocá-las em concordância com a exposição dos seus rostos e ambições no metro de Lisboa. "Havia uns que não queriam. E mesmo depois de explicarmos muito bem, houve alguns que continuaram a não querer." O objetivo da exposição passou por demonstrar ao público que os sem-abrigo também são seres humanos iguais a nós, com sonhos e objetivos de vida. "Eles têm histórias e coisas incríveis para contar. E as pessoas quando olham para eles na rua não se lembram que são iguais a nós, que têm sonhos, que tinham objetivos de vida. Pensam que fazem parte da rua, que são apenas um objeto na rua".

Interrogado se, com este projeto, conseguiu ajudar os sem-abrigo de algum modo ou apenas comoveu o público, João responde de forma direta e bastante sincera: "Não sou a Madre Teresa de Calcutá. Se eu os puder ajudar tenho todo o gosto nisso. Montes de sem-abrigo pediram-me comida e eu fui o primeiro a ir a correr buscar, mas financeiramente não é com esse intuito que faço os trabalhos. Todos os trabalhos que faço são para ser publicados ou com intenção de tal. Claro que eu vivo disto, vivo das fotos que tiro, das publicações que faço. E eu gosto é de fotografar isto, gosto de fotografar causas sociais e este tipo de realidades".

A aceitação do público foi outro aspeto "brutal", aponta. "Foi uma coisa estupidamente gratificante. As pessoas falavam muito disso, criámos uma página no Facebook e num dia já tínhamos mais de mil e tal likes. Fomos também a galeria mais vista de 2014 e, sendo que aquilo só foi publicado no fim de 2014, conseguimos ultrapassar todas as outras. Obtivemos quase 32 mil visitas".

Mas a exposição não se limita a terras lusitanas. Depois de passar por Lisboa, Portimão e Braga, a convite de um decorador português de uma galeria em Haia, será apresentada na Holanda no final deste ano. "Foi uma surpresa. Ele viu o projeto e ligou-me a fazer a proposta. Vai reproduzir todas as fotografias lá e vai ajudar a montar. Nós só vamos um dia antes, montamos, vamos à inauguração e voltamos para Portugal". Também São Paulo será palco dos sonhos que ficaram perdidos nas ruas lisboetas, porém ainda sem data prevista.

Dentro da vasta área da fotografia, tal como já foi referido, faz um pouco de tudo. Fotografa para empresas, para anúncios publicitários e desenvolve alguns trabalhos de fotografia documental, mas a sua paixão é, "sem dúvida", o fotojornalismo. Apesar da agitação que é a redação e de admitir que muitas vezes os fotógrafos não têm a cabeça limpa de um trabalho para outro, afirma que gosta disso. "Nós tanto fazemos um funeral de manhã como um casamento à tarde. Mas eu adoro isso, é bom para mim, ganho estaleca… sou novo!" Os trabalhos que faz para publicidade não lhe dão a "adrenalina" que o fotojornalismo proporciona, acrescenta.

A fotografia transmite inúmeros ensinamentos e oferece um contato constante com o mundo em redor. Com os olhos postos atrás da sua objetiva, João capta momentos e lições de vida que nunca mais esquecerá. Recorda, como o momento mais marcante do seu percurso, o falecimento de uma menina que havia fotografado nos braços da avó, no Bairro 6 de Maio, em Lisboa. "Quando estava em reportagem na Cova da Moura, na Amadora, fiz um retrato de uma avó com a neta, com quem criei grande empatia. A menina tinha uma doença muito grave em estado avançado e quando voltei ao bairro para continuar a reportagem a rapariga já tinha falecido, não cheguei a tempo", relembra, visivelmente emocionado. Fez questão de oferecer o retrato à senhora, que lhe confessou ser o único que possui da sua neta.

Atualmente a desenvolver um trabalho sobre crianças com cancro, diz que está a ser a maior lição de vida que alguma vez teve. "Saio de lá completamente arrasado. Mas arrasado no bom sentido. A força daqueles miúdos é incrível". Conta ainda que um dos rapazes com quem fez amizade lhe disse que se inscreveu na escola de condução, algo que não é propriamente esperado de um jovem nesta condição.

"Ele próprio sabe que amanhã pode já não acordar. O estado da doença dele é tão grave que ele pode durar um mês ou duas horas. Ele sabe que pode nem chegar a ir às aulas de condução. Mas a força que me transmitiu é inacreditável. E disse-me mais: 'João, a mim não me chateia a morte, porque eu posso ter uma morte feliz'."

O tempo não estica, conciliar tudo nem sempre é fácil e colocar o trabalho acima da vida pessoal e familiar é deveras recorrente. Constantemente solicitado, o João não para. Férias? Nem vê-las. "É um bocadinho complicado. Não me lembro da última vez que fui sair à noite. Ou quando vou sair à noite levo sempre a máquina atrás porque me podem ligar a qualquer hora. O telemóvel não para, os e-mails não param. Não consigo ir a casa ter com a minha mãe muitas vezes como gostava. Datas festivas como o Natal, eu fico sempre até à última aqui, só saio de Lisboa às seis da tarde do dia 24, vou a correr para Portimão e chego lá só às 8 e meia. Na minha profissão temos de ser rápidos e inteligentes, porque havendo tempo para tudo ninguém espera por nós. Não tenho Páscoa, não tenho verão, mas são escolhas que se fazem. E faço-o com gosto".

E a faculdade? "Ora, essa é quase sempre deixada para último plano", ri-se. "Às vezes chateiam-se um bocadinho comigo por raramente ir às aulas. Claro que tenho dificuldades. Se fosse às aulas todos os dias, ou mesmo todas as semanas, tirava as minhas dúvidas e fazia os trabalhos todos a tempo. Mas há dias que é complicado. Quando faço as noites, saio do jornal às 7 horas e é impossível estar na faculdade às oito e meia. Mas consigo fazer tudo, não estou lá presencialmente, mas por e-mail consigo fazer tudo".

Convicto de que o mercado de fotógrafos já não é o que era, tem receio que cada vez mais sejam substituídos por pessoas comuns que o fazem com um simples telemóvel e sem levar dinheiro. "Se cada vez mais os fotógrafos fazem de borla, os outros que levam dinheiro vão ficando para trás. No outro dia pediram-me para ir tirar fotos a um jantar de uma empresa e depois disseram-me que não tinham dinheiro para me pagar. Obviamente recusei. Eu não trabalho de graça. Tu não vais ao talho comprar carne de graça. É como chegar ao pé de um fotógrafo e dizer 'olhe apetece-me ter fotografias, mas não tenho dinheiro para lhe pagar'". Os próprios órgãos de comunicação social "pedem aos jornalistas que tirem fotografias com os seus smartphones de modo a dispensarem a contratação de um fotojornalista", afirma.

Quanto ao futuro, esse ainda não é certo. Mas não é homem de ficar parado no mesmo sítio e garante que, apesar de já trabalhar bastante, não é suficiente, ambicionando muito mais. Não pretende emigrar definitivamente, nem pretende ficar em Portugal o resto da sua vida. O ideal é conjugar o melhor dos dois mundos. "Eu gostava de ir, mas por temporadas. Ir 6 meses, voltar 6 meses, ou ir 2 meses, voltar 3 e voltar a ir 2. Mas para sítios específicos, zonas de conflito ou de miséria como Faixa de Gaza, Afeganistão, Somália, Quénia", explica. Para já, tem em mente acabar o curso este ano, tirar uma especialização em fotojornalismo, propor um estágio à agência Lusa e juntar dinheiro para ir viajar. E, talvez um dia, espera ser contratado pela Reuters ou pela Getty Images.

Sem nenhuma exposição na manga, nem intenções de o fazer para breve, revela que já tem uma viagem planeada para o próximo mês de Outubro. Uma verdadeira aventura, diga-se. Na companhia da sua máquina e apoiado pela Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), rumará ao Quénia com o intuito de fazer uma reportagem sobre o maior campo de refugiados do mundo, na cidade de Dadaab. Com capacidade para 9 mil pessoas, alberga 50 mil. Terá ainda acesso a outros tantos campos de refugiados e fará trabalhos em algumas universidades no Quénia, em especial na do recente massacre, em Garissa, que originou 147 mortos.

Confessa que não é uma decisão fácil e que até tem algum medo, mas está determinado e focado no objetivo. "Ter medo é bom. Imagina que chego lá e deparo-me com uma situação semelhante à que aconteceu no Quénia há pouco tempo em que atiradores invadem a universidade e matam montes de gente. Se eu não tivesse medo ia lá para dentro fotografar. Tenho que ter consciência e limites. E quando estiver no avião vou desejar não ir".

A fotografia é uma arte que não se ensina. João, que tem esta paixão desde tenra idade, diz que a escola possui apenas um papel complementar na sua aprendizagem. "A escola só nos ensina a ser tecnicamente muito bons. Fazer uma foto boa, com a luz boa, a velocidade boa, isso ensina-se. Mas não se ensina a sensibilidade de fotografar uma pessoa".

Entretanto, já atrasado para mais uma noite atarefada de trabalho, respondeu a uma última questão. Para si, um bom fotojornalista é aquele que consegue contar uma história sem precisar de palavras que a apoiem. E se conseguir fazer chorar quem a vê, seja de alegria ou tristeza, "é o auge", conclui. #Artes