As tuas lágrimas. Como se me entrassem pela pele. Dissemos o que não devíamos e depois o choro. Depois sempre o choro.

"As pessoas falam demais quando magoam. É tão simples e ainda assim repete-se: as pessoas falam demais quando magoam. As palavras não existem para magoar. Quem inventou as palavras inventou-as para amar. Mas depois chegam os outros, os que encontram outros usos. O problema das coisas, de todas as coisas, nunca é as coisas; é o uso que delas é feito. Até um beijo pode matar, até um abraço pode doer. O problema de todas as coisas é o uso que as pessoas fazem delas. Usei-te para libertar o que me fazia doer. E doeu-te. A imbecilidade das pessoas é muitas vezes fazerem do que lhes dói o que vai doer aos outros: usar o que dói como arma para doer.

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Que estupidez. As pessoas falam demais quando magoam".

Escreveu assim no seu caderno de reflexões ("O Livro do Miserável"): só escrevia quando apertava, quando as palavras lhe saíam pelas mãos. Depois pousou-o onde sempre o pousava, no corredor, entre a sala e o quarto, onde sabia que ela iria passar e parar. Iria ler e iria entender. Seria o primeiro passo para perdoar.

"Entender é o esboço de tentar. Tentar é o esboço de conseguir. Quando me entendes dói menos. Quando percebes que só falo o que me impossibilita de viver. É uma questão de sobrevivência. Matar ou morrer. Peço-te que entendas. Mais uma vez. Peço-te que percebas que há instantes que me impedem de continuar. E há que sangrar. Pior: há que fazer sangue. É muitas vezes o sangue que salva vidas. É ele o aviso, o alarme.

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Há que salvar o sangue para salvar uma vida. Ou duas. Como as nossas. Entende-me. Por favor. Entender é o esboço de tentar".

A noite iria ser longa. Uma interminável sucessão de lembranças, uma interminável sucessão de dúvidas. Provavelmente um dia seria de vez. Provavelmente um dia ela iria entender o que ainda não entendera: que nunca deixaria de ser assim. Ele iria continuar a ser isto. Apenas isto. Um humano que precisa de explodir. Um humano constantemente em rota de colisão ("em rota de solidão") consigo mesmo - e que, para sobreviver, colide com quem ama. Um egoísta, no fundo. Um reles e tenebroso egoísta, capaz de sacrificar quem ama para evitar o sacrifício final. Um dia ela iria entender. Um dia ela iria desistir.

"Estou sozinha de ti. Vem".

Mas hoje não. #Literatura