Devia ter dito e não disse.

Ao homem da minha vida que é o homem da minha vida, todos os dias, sem parar, porque quando há algo tão bom como amar alguém para fazer todos os dias não o fazer não é timidez; é estupidez.

À minha mãe que é a velhota mais adorável que o mundo poderia conhecer e que quando me olho para a frente e me vejo como ela acredito que a velhice até pode mesmo ser a coisa mais linda de sempre.

Ao meu pai que pode parecer um durão mas que eu sei e sei que ele sabe que não é durão nenhum, é apenas um lamechas de primeira ordem, que quando se deita sem a mulher que ama chora que nem um bebé, e ainda bem, que uma pessoa que não chora que nem um bebé sempre que não tem o amor ao lado não é pessoa nenhuma.

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Aos meus amigos que são apenas dois e que só são apenas dois porque depois de os ter na minha vida tudo o resto sabe a pouco, e que a amizade é uma forma de amor que não existe exclusividade mas quase, e quando se tem dois amigos assim não se precisa de mais amigos nenhuns porque o que tenho para gostar de alguém está gasto e mais do que gasto, e felizmente.

Aos cabrões que me desvalorizam por ser mulher e usar saia e gostar de estar apresentável que não sou menos capaz, menos senhora, menos competente, menos líder, menos forte, menos má se tiver de ser, menos pessoa, por ser assim e adorar ser assim.

Ao que dói que vai passar, que tem de passar, que só pode passar, pelo simples facto de que tudo passa, até o que é mau, e que muitas vezes o que nos faz parar é o que faz andar, e amar, passe a redundância e a felicidade.

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Aos que deixaram de viver que eram importantes, que precisava deles e que dói como se me agarrassem a carne por dentro lembrar-me do que fomos e já não podemos ser, do que poderíamos viver e já não podemos viver, do que deixámos por fazer e que mesmo assim vivemos tudo o que havia para viver.

Ao espelho que era tempo de dizer basta quando basta tinha de ser, quando estava a fazer o que não devia fazer, que estava a ceder no que não devia ceder, que estava a aguentar no que não conseguia suportar, que estava a esticar o que só podia rebentar, a procurar o que não podia encontrar, a magoar-me no que não podia senão magoar, a procurar a salvação no que só podia trazer queda, voo no que só podia significar desastre.

A ti que ainda vais a tempo de dizer o que eu não disse.

Vai.

Diz. #Literatura