Era uma menina que não gostava de chuva,

e começou a chover,

depois a menina vestiu um casaco comprido e sentiu-se segura,

até que percebeu, quando já estava na rua, que o casaco estava rasgado e deixava entrar a água toda,

de seguida a menina foi a uma loja e quis comprar um guarda-chuva,

estavam esgotados, teve de comprar uma capa impermeável, daquelas amarelas e bem feias,

quando chegou à escola é claro que todos a gozaram, disseram-lhe que parecia um trabalhador das obras,

e ainda a gozaram mais quando perceberam que tinha também as botas rotas dos lados,

a menina usou um tecido que encontrou no chão, desenrascou qualquer coisa para tapar as botas,

entrou para a sala com alguns minutos de atraso,

os suficientes para a professora já não a deixar entrar,

estava a decorrer o teste mais importante do ano e ela ficou cá fora, sem saber o que fazer,

para passar o tempo foi jogar voleibol com outras meninas que estavam no recreio, adorava jogar vólei, era o seu desporto favorito, aquele em que muitos diziam que tinha um grande talento e talvez um grande futuro,

o que não gostava era de cair, que foi o que aconteceu um ou dois minutos depois, esmurrou a cabeça, os joelhos, os cotovelos,

tiveram de a levar para o hospital,

tinha medo de não poder jogar mais, de estar tudo perdido,

também tinha medo de ambulâncias, mas sempre lhe disseram que eram seguras,

e eram,

menos aquela, que não parou num semáforo vermelho e não evitou o choque com um camião que vinha do outro lado,

ninguém ficou ferido, só a menina é que continuou ferida e com o casaco dos homens das obras e as botas rotas e sem saber se iria poder voltar a jogar vólei ou conseguir passar de ano,

para além disso não havia nenhum médico disponível e teve de esperar quatro ou cinco horas para ser atendida,

quis ligar à mãe, mas o telemóvel estava sem bateria, ficou sozinha com pequenas gotas de sangue seco em algumas partes do corpo sem que ninguém se preocupasse,

cá fora a chuva continuava a cair, lá dentro a menina continuava à espera,

de repente a porta abriu-se e entrou um menino da idade da menina, ou mais ou menos da idade da menina,

sorriram um para o outro, disseram olá um ao outro, contaram a vida toda um ao outro,

e quando há bocado, mais de sessenta anos depois, lhe perguntaram qual havia sido o melhor dia da sua vida, o mais feliz dia da sua vida, o dia que mais gostava de relembrar para sentir que a vida valeu a pena, a menina respondeu que foi sem dúvida nenhuma aquele mesmo dia,

em que havia uma menina que não gostava de chuva,

e começou a chover.

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