Hoje apetece-me a infância. Lamber contigo um gelado no meio da rua, o sol bem alto e as pessoas invejosas a chamarem-nos crianças.

Chamarem-nos crianças é chamarem-nos felizes - que triste é quem não vê isso, já viste?, pobres desgraçados, quando acordarem vão perceber que já não podem acordar, que calamidade.

Vamos mudar de casa e sabemos que o que interessa ficará sempre no mesmo lugar. Há-de haver lugares novos para brincar - é essa afinal a grande razão para mudar de casa, encontrar novos lugares para brincar, o que mais? -, havemos de encontrar espaços por desbravar no interior de nós, parques de diversão que ninguém sabe que existem, nem nós: se há algo infinito no mundo é o segredo que cada corpo esconde.

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Já vivemos em tantos lados e nunca deixámos de estar aqui.

Gostar de alguém é estar aqui - ensinem isto nas escolas e façam da cultura uma forma emocional, e não só racional, de viver.

Ser culto é ser capaz de amar, decorar a importância do abraço, a densidade intelectual do beijo.

Ser culto é ser capaz de amar - que todos os intelectuais o entendam de uma vez por todas.

Hoje apetece-me a infância. Dançar contigo na praia, eu de calções e tu de biquíni, o mar pousado ao nosso lado e todas as preocupações esquecidas debaixo da pele. Cheira a férias grandes e a liberdade, a minha mão descobriu que existe a tua, as lágrimas estão longe daqui e ao mesmo tempo próximas.

Estar feliz é também estar perto da lágrima, acreditar na intemporalidade do que nos cabe como faca no tórax.

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Ontem pedi-te para voares comigo e em poucos minutos já rebolávamos pelo chão - e assim se percebe que não percebemos nada de voar, e que só por isso voamos, nem sempre é de objectividade que se faz o prazer, e objectivamente quero-te porque preciso de ti em mim, Deus me ajude, mas mais ainda tu.

O Verão existe para que o amor exista - mas é para isso que existem todas as estações, na verdade.

O problema da vida é a infância ser tão pouca. Felizmente existimos nós para equilibrar muito a balança.

Vens rebolar comigo na areia depois de um mergulho, vens? #Livros #Literatura