Há amores muito difíceis de explicar e há amores facilmente explicáveis, sendo que só os primeiros são amores.

Comprou-lhe o anel de noivado ainda antes de a conhecer.

Sabia que nada podia falhar, em momento algum, se porventura viesse a acontecer o que desde há mais de vinte anos, quando a conhecera, decidira fazer. A empregada da loja sorriu quando lhe perguntou qual era a medida dela e ele respondeu: "a minha; exactamente à minha medida". Passou uma hora, talvez menos um pouco, até que encontrou o tal. Levou-o, pediu para o embrulhar "no melhor papel de sempre" e disse simplesmente "não sei" quando, desta vez, a empregada quis saber qual era afinal o nome dela.

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Reservou a igreja para o casamento ainda antes de a conhecer.

A igreja mais bonita da cidade, onde sabia que ela tinha sido baptizada e onde tinha feito a primeira comunhão e todas as comunhões depois dessa. De seguida marcou tudo no registo ("deixe o nome da noiva em aberto para já, por favor"), foi até à quinta mais requisitada da região para estas coisas e em pouco tempo ("sabe quem eu sou, não sabe? sim, sim, o gajo que aparece na televisão, um dia levo-o lá ao meu programa para falar deste seu espaço maravilhoso") tinha tudo prontinho para a grande cerimónia. Só faltava a noiva.

Comprou-lhe a casa dos sonhos dela ainda antes de a conhecer.

Um apartamento no último andar, com piscina privativa interior, um quarto gigante só para poder colocar todas as suas roupas e sapatos à vista, um espelho de alto a baixo ao longo de uma parede inteira: "quero que haja o máximo de imagens dela pela casa; é para isso que servirá o espelho, todos os espelhos: tê-la mais vezes, vê-la mais vezes, amá-la mais vezes; os espelhos servem para amar a dobrar e se não são uma invenção de Deus então Deus é tudo menos Todo-Poderoso".

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Fez o negócio num instante e só não assinou logo a escritura porque queria que tudo ficasse, desde já, em nome dela: "dêem-me um dia para vos dar os dados pessoais da pessoa que vos vai comprar a casa". Apertou a mão e sentiu-se feliz.

Pediu-lhe um autógrafo em alguns papéis ainda antes de a conhecer.

Ela achou-lhe piada, sentiu-se especial por ter uma celebridade a tratá-la como uma celebridade, riu alto e assinou. Ele pediu uma garrafa de champanhe ao empregado do bar, brindou com ela e disse-lhe com simplicidade: "és proprietária da minha casa e eu gostava de ser teu inquilino". Ela aceitou mas, meio a sério meio a brincar, disse que não tinha outro lugar para morar. Ficaram temporariamente a morar na mesma casa, numa situação que nunca declararam às finanças. "Devo o meu amor por ti à tua inteligência, mas também à nova lei das rendas", terá ela confessado um dia, numa declaração que tinha tanto de amor como de fuga fiscal.

E foram felizes para sempre ainda antes de se conhecerem. #Literatura