Despreza.

O que não te abala da ponta dos pés à ponta dos cabelos.

Quem te diz que depois ama, que "quem sabe um dia?", que "claro que sim mas agora não, que não dá".

Aquilo que não te traz sonho, que não te traz ilusão, que não te permite tirar os pés do chão.

Encaminha para o raio que o parta.

O que não te apaixona, o que não te faz sentir menino outra vez, adolescente outra vez, vivo outra vez.

Quem te pede precaução, quem te diz "quem te avisa teu amigo é".

Aquilo que é relativamente bom, agradavelmente razoável, educadamente comedido.

Manda encher-se de moscas.

O que te puxa para trás, o que te faz ter medo.

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Quem te diz "mas" a toda a hora, quem só encontra problemas, quem é especialista em "contudos".

Aquilo que não assusta, aquilo que não arrepia, aquilo que pode acontecer ou não acontecer que pouco ou nada se altera em ti.

Borrifa-te.

No que ontem foste e pensaste e sentiste.

Em quem te explica que não podes mudar, que a coerência é humana.

Naquilo que é imutável, na incapacidade de sentir que o mundo todo pode mudar de um dia para o outro porque tu mesmo podes mudar todo de um dia para o outro.

Sugere dar banho ao cão.

O que só te traz proibições, o que te comprime sem razão, o que te impede de respirar.

Quem não te dá coisas novas todos os dias, abraços novos todos os dias, experiências novas todos os dias.

Aquilo que não tem amor incluído, aquilo que não tem emoção incluída, aquilo que é tão intelectual que só pode ser maquinal.

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Defeca.

No que não te fica na memória, no que não é inesquecível, no que não é irrepetível.

Em quem não falha, no desgraçado do perfeitinho, no constantemente limpinho, no cabrão do certinho.

Naquilo que te traz más sensações, no que o teu instinto inexplicavelmente rejeita, no que não sabes porque não queres mas realmente não queres.

Conduz para a real meretriz que o deu à luz.

O que te faz ser orgulhoso, o que te faz ser prepotente, o que te reprime a entrega.

Quem te diz que é impossível, quem nunca pede desculpa, quem tem vergonha de tentar, quem não aguenta ceder.

Aquilo que acabaste de ler se não o sentiste, porque só existe o que se sente, porque só o que nos lê merece ser lido, porque nenhuma leitura se faz antes do leitor, porque

só é poesia

quando o poeta

o lê. #Literatura