Havia um homem que chorava no centro da rua.

Havia um cão que, abandonado, se estendera à sombra de um candeeiro.

Havia um calor infernal, o chão como canibal debaixo dos pés.

Havia uma velhota sozinha a caminho da padaria.

Havia uma praça verde, árvores frondosas, a pedra da calçada cheia de histórias para contar e de ninguém para as ouvir.

Havia um jovem que, de mala na mão, entrava numa velha camioneta que ali passava uma vez por dia, religiosamente às 16 horas, conduzida religiosamente pelo senhor Heitor, filho do presidente da junta da freguesia.

Havia um relógio da igreja meticulosamente adiantado três minutos em relação ao resto dos relógios do mundo (pelo menos dos que estão certos), como se ali se vivesse três minutos à frente do seu tempo.

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Depois houve o homem que chorava a chorar ainda mais, o cão abandonado a chegar-se a esse homem, a pedir com a cabeça e o olhar caído e ao mesmo tempo esperançado um mimo, o homem a limpar com uma mão a lágrima e com a outra a fazer-lhe um mimo, a dizer-lhe "anda cá que estás vivo" (basta tantas vezes alguém estar vivo na nossa vida para a nossa vida passar a estar, também ela, viva), a velhota que ia a caminho da padaria a parar junto ao homem e ao cão, a olhá-los com todo o tempo do mundo (são os velhos que, apesar de não terem tempo nenhum, parecem olhar para o mundo com todo o tempo do mundo, e se calhar são mesmo eles que têm todo o tempo do mundo), de seguida a aproximar-se ainda mais de ambos, a sentar-se junto aos dois, a mão velha dela na cabeça molhada dele, a mão trémula e desistida dele na cabeça peluda e suja do cão, ela a dizer "deixa que se é humano passa" (um velho sabe que passa, basta olhar para ele e sabe-se que passa, que tudo passa, sobretudo a vida), o cão a abanar a cauda como se a felicidade se resumisse a estar junto de quem o quer (e o sacana até é bem capaz de ter razão: no fundo a felicidade pode no final das contas resumir-se a estarmos juntos de quem nos quer), a velhota com a força toda que tem a puxar o homem, a erguê-lo, ele a deixar-se puxar (toda a ressurreição se inicia com alguém outrora morto a deixar-se puxar), o cão a encostar-se aos dois enquanto se levanta, a sede parece que já se foi, o calor também, está um silêncio completo no interior da praça antiga da aldeia antiga, e um homem que chorava ainda chora mas já tem com quem chorar (não é a felicidade também ter com quem chorar?), e uma velha que ia à padaria já vai à padaria com alguém com quem partilhar o pão (não é a felicidade também ter com quem partilhar o pão?), e um cão que estava abandonado já encontrou em segundos as pessoas da sua vida (não é a felicidade também encontrar em segundos as pessoas da nossa vida?), o que lhes aconteceu quando entraram naquela pequena casa terá sido o que acontece a toda a gente em todas as casas, pequenas ou grandes, deste mundo de deus ou de outra coisa qualquer, quem foi capaz de amar amou e foi feliz para sempre mesmo quando foi infeliz, quem não foi capaz de amar não amou e foi infeliz para sempre mesmo quando foi feliz, e entretanto, exactamente três minutos depois, o jovem que havia entrado na camioneta vem a correr sob o calor infernal e bate à porta da casa da velhota, ela abre, chora, abraça-o, o homem que chorava passa a ser o homem que volta a chorar (mas parece chorar um choro oposto ao choro que chorava antes), o cão abana a cauda e quer também um abraço, o relógio da Igreja aponta 16 horas e quatro minutos, quando o resto do mundo chegar a esta hora já três pessoas e um cão viveram três minutos de mudança, haja pelo menos três minutos para mudar a vida,

e ela mudará mesmo.

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