Nunca acontece o que se espera que aconteça. E ainda bem.

Quando te conheci pensei que ia conhecer outro homem qualquer, se queres que te diga nem me lembro do nome dele mas foi ele que me levou até ti. É uma das pessoas mais importantes da minha vida e não lhe sei o nome, vê lá tu. Se não tivesse aquele encontro naquele dia não teria ido àquela bomba de gasolina àquela hora exacta e não me teria enganado e colocado gasolina quando teria de ter colocado gasóleo. Não teria esperado ali uma hora por alguém que me viesse ajudar, uma pessoa qualquer que a companhia de seguros mandou - também não me lembro do nome dessa pessoa, eles que me perdoem que nesse dia a única memória que tenho é a que te vou contar a seguir.

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Esperava que alguém me viesse salvar e tu chegaste para me amar, o que, bem vistas as coisas, é a mesma coisa sem tirar nem pôr.

"Importa-se que lhe diga que descobri algo de mim dentro dos seus olhos", perguntaste, uma frase absolutamente ridícula da qual me teria rido e me teria feito afastar de ti ("que grande cromo que este me saiu"), não fosse dar-se o caso de também eu, nesse mesmo instante, ter descoberto algo de mim no interior dos teus olhos. Não sabia ainda o que era - quando o amor chega nunca se sabe bem aquilo que é, e só assim é que na verdade é mesmo amor.

"A última vez que me enganei no combustível não valeu a pena assim", contaste-me depois, estavas ali pelo mesmo motivo que eu, cabeça a tua, cabeça a minha, encontrámo-nos no meio de duas distracções e bem vistas as coisas é mesmo assim que se encontra o amor: o amor é um espaço muito difícil de alcançar, situado exactamente no meio de duas distracções.

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Só quando duas pessoas se distraem de tudo o que não recomenda um amor (e é tão mais aquilo que não recomenda um amor do que aquilo que o recomenda, e é por isso mesmo que o amor é de certeza a coisa mais importante da vida: a única coisa importante da vida, se queres saber a minha opinião) é que o amor pode ter espaço para entrar, acomodar-se, encontrar o seu melhor ângulo e finalmente ficar, simplesmente ficar, deliciosamente ficar, e depois dolorosamente ficar, claro, também tem de doer, como naquele dia também doeu quando a situação ficou resolvida, o teu carro estava pronto, o meu também, felizmente tiveste a coragem de dizer que descobriste algo de ti nos meus olhos mas que desafortunadamente não tinhas conseguido descobrir o meu número de telefone. Desatei a rir mesmo que, agora que penso nisso, até ache que não foi grande piada, mas ri-me que nem uma perdida e só podia mesmo rir-me assim, porque era mesmo assim que eu estava: perdida, irreversivelmente perdida, de tal maneira que quando cheguei ao tal encontro com o tal homem não disse coisa com coisa, só olhava para o raio do telemóvel que não havia maneira de tocar, foram à vontade quatro ou cinco minutos os que tu demoraste até ligares, a primeira vez que vi o teu número a aparecer foi a primeira vez que percebi que o amor tinha telefone, e se existe a felicidade pode muito bem ser só isso - saber que o amor tem um número de telefone e que se pode ligar-lhe sempre que é preciso, como eu acabei de fazer agora: distraí-me e estou com o carro cheio de gasolina quando devia estar cheio de gasóleo (rais parta, quando é que aprendem a colocar as letras maiores nestes postos modernos?), na bomba junto à casa do teu tio Carlos.

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Vens cá por favor que eu juro que me distraio muito logo à noite quando nos formos deitar? #Literatura