Quando a viu nua, vestiu-a e pediu-lhe perdão.

Onde é que já se viu, a sua mulher assim despida no meio da rua? Que haveriam de pensar dele? Que haveriam, pior ainda, de pensar dela?

Amar é, mais do que tudo o resto, colocar quem amas acima de tudo o resto. Talvez esse não seja um amor saudável, talvez aqueles que dizem que devemos amarmo-nos antes de tudo o resto tenham razão; mas para que raios serve o que é saudável se não é amor?

A verdade era essa: amava-a acima de tudo. Quando pensava na imagem dela esquecia-se de quem era - e sentia-se, paradoxalmente, profundamente dentro de si. Como se precisasse do que ela lhe trazia para se poder carregar até ao interior de si mesmo.

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"Veste-te que quando chegares a casa dispo-te como deve ser."

Ela vestiu-se - e ria, ria tanto, aquele riso que nenhuma rua suporta sem amar para sempre (à volta as pessoas olhavam e amavam-na, o corpo dela, a voz dela, aquela maneira absurda de fascinar só porque é assim: uma criatura incomparável; mais ainda: uma criatura acima de qualquer comparação).

O amor é, mais do que tudo o resto, aquilo que está acima de qualquer comparação.

E tudo porque lhe tinha dito que não era capaz - que ela não era capaz. Mas era. Era capaz. Haveria algo de que ela não fosse capaz? Havia sido capaz de cantar em cima do piano de cauda de um dos cantores mais famosos de sempre: simplesmente invadiu o palco, sabe-se lá como, e ali ficou, a cantar, desafinada mas artista (quem diz que o melhor cantor é o que afina melhor não percebe nada de música, e muito menos de emoção, passe a redundância), para mais de vinte mil pessoas.

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Havia sido capaz de simular uma gravidez num avião só para poder ter uma fila de assentos só para si e para ele. Havia sido capaz de largar, de um segundo para o outro, a sua casa de sempre, a sua cidade de sempre, o seu emprego de sempre, a sua vida de sempre, só para estar ali, com ele, naquele momento, naquele lugar onde ninguém os conhece. Só para o amar.

O amor é, mais do que tudo o resto, aquilo que serve só para amar.

Porque haveria de não ser capaz de, só porque lhe apetece, se despir completamente no meio da rua? Erro crasso, tê-la desafiado. Ou simplesmente mais uma maneira de a conhecer melhor: de a perceber como a desconhecida que sempre iria ser. Há pessoas assim: por mais que as conheçamos serão sempre desconhecidas na sua imprevisibilidade; estranhas de si mesmas, talvez. Mas tão deliciosamente donas do seu mistério.

O amor é, mais do que tudo o resto, a forma mais deliciosa de mistério.

O que acontece agora mesmo neste quarto de um hotel de quinta categoria não é, pelo contrário, mistério algum.

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Não vamos pormenorizar, até porque imaginar é, por vezes, muito melhor do que observar. Digamos apenas, para simplificar, que há dois corpos que se querem e que se têm.

O amor é, mais do que tudo o resto, dois corpos que se querem e que se têm.

Quando a viu nua, vestiu-a e pediu-lhe perdão.

Ela, teimosa, não aceitou o pedido de desculpa. E manteve-se nua, pois então. #Literatura