Conheceram-se no dia em que deixaram de se conhecer.

Ela, que sempre se conhecera como a mulher frágil e tímida, teve coragem para, do nada, ao vê-lo, lhe pedir indicações para uma rua que estava farta de conhecer - não fosse essa a rua onde ela própria morava.

Ele, que sempre se conhecera como o típico galã com as respostas certas na ponta da língua, gaguejou, não soube bem o que dizer - até que, a medo, lá se saiu com uma explicação que não explicou nada, mas que acabou por explicar o mais importante.

O que aconteceu no interior de cada um deles depois de se conhecerem foi o que nenhum deles soube, mais tarde, contar com minúcia.

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Ela contou que a vida, tal como ela era, mudou ali. Contou ainda que não soube se mudou para melhor ou para pior - mas que tinha de mudar. "Mesmo que não quisesse mudar nada em mim já tudo estava mudado".

Ele contou que assim que deixou de a ver naquele dia passou a vê-la ainda mais: "como um segundo olhar, uma segunda visão", explicaria, enquanto uma espécie de lágrima teimava em cair sabe-se lá porquê.

Eram ambos solteiros quando se conheceram e ainda são. Mas agora são solteiros um com o outro.

Ela inventou o conceito de estar solteiro com alguém quando, sem saber como (ela que nem era nada dada a poesias e a aforismos), lhe disse que com ele se sentia exactamente mais livre do que sozinha: "como se me fizesses existir mais quando me fazes existir em ti", tentava expor a quem a ouvia.

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Ele aceitou o conceito de estar solteiro com ela quando, ao ouvir a explicação, percebeu que podia muito bem ter sido ele a dá-la: "tiraste-me as palavras da boca", disse-lhe. "Agora vou buscá-las de volta", acrescentou. E beijou-a com profundidade.

A cerimónia em que se uniram para sempre enquanto solteiros foi um copo de água.

Do Luso. Estavam, nesse instante, no Talho do senhor Emídio, um santo homem, e perceberam que teria de ser ele (não por ser santo, mas por ser a pessoa que estava mais à mão, sejamos objectivos) a celebrar a cerimónia. "Pelos poderes que me foram investidos, declaro-os oficialmente solteira e solteiro um do outro", disse por fim, socorrendo-se de um iPad onde, no Google (no Gógles, como ele sem falha diz), pesquisou as palavras certas para um matrimónio assim.

Quando lhes perguntavam o estado civil respondiam apenas "felizes".

Ela, que sempre se conhecera como a durona que não acreditava no amor, derreteu-se para sempre.

Ele, que sempre se conhecera como o insatisfeito permanente, completou-se para sempre.

Conheceram-se no dia em que deixaram de se conhecer.

E ficaram solteiros para sempre. #Literatura