"Aqui estou, usa-me".

Foi assim que se apresentou perante ele. Tinham-se cruzado apenas uma vez, no ensino secundário, e nunca deixou de ter a certeza de que era aquele, exactamente aquele, o homem da sua vida. Tinha pelo menos a certeza de que seria capaz de morrer por ele, e se não é essa a melhor forma de se saber que é essa a pessoa da nossa vida então não existe qualquer forma de se saber quem é a pessoa da nossa vida.

"Estava a ver que não vinhas".

Não se pode dizer que aquilo que eles deram foi um abraço. Foi, isso sim, uma troca de vidas: cada um dos constituintes do abraço se entregou ao outro como se dentro de ambos não houvesse corpo: como se o corpo fosse um estorvo para o abraço que se queriam dar.

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Mas um estorvo com sabor, um estorvo com prazer, e se não é essa a melhor forma de se saber que se ama alguém então não existe qualquer forma de se saber que se ama alguém.

"Cheguei a tempo de não ser tarde demais, chega-me isso".

E chega. O erro de muitas pessoas é apressar o que é urgente, quando a urgência exige, na maioria dos casos, a paciência de se aquietar antes de se solucionar. Há urgências que exigem maturação. E não é por isso que deixam de ser urgências. A forma como, por exemplo, os dois corpos se juntaram sobre a cama não exigiria mais do que um humano para ser percebido por inteiro: nada naqueles movimentos parecia forçado; estavam os dois em casa, como se estivessem sempre dentro de uma intimidade exígua, uma intimidade exclusiva, como se dentro do próprio corpo, e se não é essa a melhor forma de se estar no corpo de alguém então é porque não existe qualquer forma de se estar no corpo de alguém.

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"Tinha saudades de te conhecer".

O tempo é, mais do que a vida, volátil, instável: inexistente, até. O valor do tempo é uma abstracção; a extensão do tempo é uma construção psicológica, pouco mais do que isso. Quando alguém se queixa de falta de tempo está, na verdade, a queixar-se de falta de si no tempo: de falta de tempo de vida por dentro da vida do tempo. Simplificando: quando alguém se queixa de falta de tempo está, em suma, a queixar-se de falta de si. Eis uma queixa que nem ela nem ele iriam, a partir de agora, fazer.

"Sou perfeitamente capaz de viver sozinha, desde que estejas ao meu lado".

O amor mata. Mas apenas porque dura, na pior das hipóteses, até à morte. #Literatura