A beleza é um perigo. Um perigo sem definição, um perigo abstracto. Um perigo vadio, sem dono. Não sabes de onde vem, de que parte de ti chega. Mas está lá. Abate-te, expulsa-te. A beleza é um perigo. Mas é do perigo que a vida, a que interessa, nasce. Tudo o que é irresistível tem um ponto negativo, que pode até muito bem ser esse mesmo: ser irresistível. Tudo o que é irresistível faz-nos desistir de continuar - e insistir em ceder. Há cedências perigosas: todas.

Estava sempre à janela.

Era uma mulher bela, corpo esculpido.

Passava todo o dia naquela janela.

Todos os dias, ao meio-dia em ponto, despia-se. Os carros que passavam na estrada em frente abrandavam, muitos paravam, para ver o espectáculo.

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Ela ficava cinco minutos - cinco minutos apenas, nem mais um segundo, despida, ali, sentada na janela.

Há rotinas excitantes. Rotinas que, por mais que sejam repetitivas, são sempre imprevisíveis: imprevisíveis dentro de nós, pelo menos. Tudo o que é emocional é irrepetível.

Pouco a pouco o número de espectadores aumentava. Ao meio-dia em ponto a fila na estrada era enorme. Todos se amontoavam à espera da hora de ela se despir.

É meio-dia. E nada. A mulher não se despe. Nem sequer está na janela. A multidão desespera. Um dos homens dentro do carro lança a ideia:

- Vamos lá ver o que se passa.

Nada é mais diabólico do que esperar um prazer que não chega. Há um pré-prazer que nos consome, que nos aperta cada centímetro da pele. Quando esperas o prazer e o prazer não chega és um organismo imparável.

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O lado bom do prazer é ser imparável. E o mau também.

Aí estão eles, a baterem à porta. Ninguém abre.

Não desistem. Arrombam-na.

Entram.

No quarto, na janela em que sempre julgaram ver uma mulher, encontram um poster, um enorme poster com uma mulher em fotografia - a mulher. Por detrás desse poster, muitos outros.

Colada numa das paredes, uma enorme cartolina verde. Lá, pode ler-se: "A Vossa Volúpia Vai Finalmente Ter O Castigo Que Merece."

Ninguém sobreviveu à violenta explosão que se seguiu. #Literatura