Mohamed M. Hammú defende a liberdade sexual feminina numa entrevista dada, na Casa das Artes, por ocasião da bienal 'Um Porto de Contos'. O narrador e escritor de Marrocos explica à Blasting News que não aceita regras. Defende até que 'é possível e necessário fazer um caminho sem prescrições de nenhum livro, sagrado ou não, para conhecer o sentido de si mesmo'. Trata-se de uma tradição berbere hoje menos respeitada, 

Interessam-lhe só os contos que absorvia em criança?

O meu cordão umbilical da escuta nasceu entre mulheres, aprendi que não há fronteiras entre os seres humanos se somos capazes e pacientes para observar para além do abismo de espelhos.

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Assim, nenhum deserto humano nos causará miragens.

Algum conto especial?

Todos aqueles que nos ensinam a sonhar.

Ser um menino só, entre mulheres que o mimavam, mudou a história de varão berbere e visão do mundo feminino?

Tive a sorte de estar no espaço feminino, desde a infância, e de reconhecer a sua sabedoria – invisível para muitos homens – e agradeço a identidade a um sem fim de anciãs que premiaram a minha vida com a sua consciência, dignidade e bom trabalho [VIDEO], apesar de nunca terem recebido – elas – qualquer reconhecimento. Isso deu-me uma visão crítica da feminilidade que tanto se esconde, dissipa ou nega. Não devemos repudiar as origens.

As histórias das berberes são diferentes?

Não, mas partem de uma marca de identidade em que as mulheres e os homens são iguais, não há um Adão e uma derivada de sua costela chamada Eva.

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Todas as mulheres ocupam o espaço da deusa Lilith.

O que mais ama nas mulheres?

Para um narrador, não há nada mais mágico do que estar sentado em frente a alguém pleno de mistério que oferece a oportunidade de descobrir a sua vida secreta. Esta é a nudez mais bela e não muito praticada no mundo.

Considera-as amadas e justiçadas?

Infelizmente, ao longo do meu nomadismo pelo grande deserto humano, os sentidos descobriram que o homem justifica a sua superioridade sobre as mulheres. Há muitas maneiras de apreciar estes disparates universais. Numa parte do globo, a obsessão social e moral é tapar a mulher até à saciedade; noutra, é despir até à pele. Tem a ver com as nossas sociedades civilizadas que desenvolvem modelos para justificar como BELEZA. 

São bem tratadas...

O mundo berbere matriarcal já só existe em aldeias longe das influências religiosas e morais chegadas de lugares distantes. As vidas das mulheres pertencem a uma rede masculina, ou seja, a seu pai, marido, filho. É incrível esta filosofia ser encarada como NORMAL, não sendo exemplo de uma cultura ou lugar geográfico e, sim, de uma atitude universal.

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Ainda lhe é permitido ouvir as berberes?

Ainda sobrevive o encontro de mulheres para contar histórias e curar os seus males terapeuticamente com o exercício da narração e da escuta. Agora que envelheci, é quando mais se admite a minha presença entre elas sem nunca se questionar o meu interesse pelo espaço e tempo feminino. Talvez seja o presente que a vida me deu para caminhar ao mesmo ritmo e não à frente, sem causar sombras desnecessárias.

O que dizem que o toca?

Fazem menção ao amor, generosidade, solidariedade, apesar das cicatrizes de anos. Não abrigam rancores, estendem as mãos para acariciar o mesmo vazio com simplicidade. Sem questionarem destinos.

Como analisa as portuguesas?

A mulher portuguesa vagueia por um mundo de paralelepípedos onde às vezes tropeça e cai, mas é firme o suficiente para dar um passeio a dois e criar uma pegada mútua.

Não vê nelas aspectos da identidade árabe?

Reconheço a prudência e a paciência. Esperar para descobrir. Não é boa a corrida.

Diz que os berberes (homens ou mulheres) aceitam amantes, mesmo casados. É possível amar tanto (e tantos/as)?

Sim, assim é. Mas devo salientar que há menos lugares do mundo berbere para desfrutar desta livre escolha pois as questões do pecado estão cada vez mais presentes.

Por isso, consta que os berberes são 'os melhores amantes'?

Sim, amante significa que ama ou sabe amar. Nós, os berberes, somos bons amantes. #Educação #Literatura