Era o dia 6 de Agosto de 1945. Uma luminosa manhã de Verão despontara em Hiroshima. Pelas oito horas da manhã, a maior parte dos operários da cidade já se encontrava a trabalhar. Muitos outros estavam a caminho do trabalho.

Corria o quarto ano de guerra do Japão no Pacífico. As forças armadas americanas, depois de anos de ferozes combates, fizeram retroceder o extenso império nipónico na Ásia austral. A tomada de Okinawa pusera os japoneses na iminência de um assalto inimigo a Kyushu, Shikoku e Honshu, ilhas principais do seu arquipélago.

A luta estava perdida. Na Europa, o fragor das armas cessara. A Alemanha havia-se rendido incondicionalmente a 8 de Maio daquele ano.

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Fora conquistada, ocupada e dividida entre os Aliados. A Itália, o outro país do Eixo, há muito que havia caído. Recusando atender ao ultimato para a rendição incondicional, feito a 26 de Julho, só ainda o Japão resistia, conquanto com o cerco anglo-americano a fazer-se cada vez mais apertado sobre o seu arquipélago e com as suas cidades devastadas por massivos bombardeamentos aéreos.

Hiroshima fora até àquele dia poupada à destruição pelos bombardeiros. A cidade, situada na costa sudoeste da ilha de Honshu, banhada pelo Mar Interior de Seto, estava construída sobre o delta do rio Ota, que, com os seus sete braços de água, a dividia em seis ilhas, ligadas por um sistema de oitenta e uma pontes. Nela habitavam umas 245000 pessoas, incluindo um significativo número de Cristãos e ocidentais.

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A cidade era um importante centro de comando militar. O seu porto tinha uma grande relevância estratégica para o transporte de pessoas e de bens, além de a cidade ser um valioso ponto de depósitos de abastecimento. A sua importância industrial crescera consideravelmente durante os anos do conflito.

Naquela manhã de 6 de Agosto, dirigiu-se à cidade, cruzando os céus sobre o oceano, um bombardeiro americano B-29, que havia partido às primeiras horas da manhã da ilha Tinian, à distância de 2400 quilómetros. O avião, pilotado pelo Coronel Paul Tibbets, recebera o nome de Enola Gay – o nome da mãe do piloto. Carregava no seu interior uma bomba de urânio de quatro toneladas, a que também fora posto um nome, eivado de um sinistro sarcasmo: chamaram-lhe Little Boy.

O avião isolado atingiu o céu sobre Hiroshima um pouco depois das oito horas da manhã. Tendo viajado até ali em modo de piloto automático, a baixa altitude, ao avistar a área, o piloto subiu até aos 31000 pés e largou o Little Boy sobre a cidade.

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Eram oito horas e quinze minutos da manhã, hora local.

Aquilo que os habitantes de Hiroshima viram foi um clarão intensíssimo, muitas vezes mais brilhante do que o sol. As testemunhas não se recordam de ter ouvido qualquer ruído acompanhando a explosão. O manto de luz envolveu a cidade silenciosamente. 

As queimaduras provocadas pelo clarão produziram-se instantaneamente. Aqueles que estavam ao ar livre directamente sob a bola de fogo foram carbonizados. O impacto fez colapsar os edifícios, soterrando muitos milhares de pessoas em escombros. Múltiplos incêndios deflagraram simultaneamente em distintas partes da cidade, agregando-se numa gigantesca tempestade de fogo.

A cidade ficou uniformemente devastada. Morreram imediatamente setenta a oitenta mil pessoas e outras tantas ficaram feridas. A radiação emitida pela explosão em Hiroshima conduziria à morte de outros muitos milhares de pessoas nos dias, semanas e meses seguintes – e não apenas à morte, mas também à doença, à esterilidade, aos abortos e às malformações dos nascituros durante muitos anos.

A declaração do Presidente Truman, comunicada ainda naquele dia, revelaria que o engenho que produzira aquele tremendo efeito de destruição era uma bomba atómica. “É o aproveitamento do poder fundamental do universo”, diria. “A força da qual o sol tira o seu poder foi desencadeada contra aqueles que trouxeram a guerra ao Extremo Oriente”. Era o início da era atómica. #História