Não há, no mundo, flagelo mais destruidor, mais diabólico, do que o flagelo da razão: de um humano que quer ter razão. É a p*** da razão (a PDR).

A PDR trucida. A PDR mói. A PDR consome. A PDR é uma m*rd*, a pior das m*rd** que Deus ofereceu aos humanos.

A PDR mata o que devia servir para viver. A PDR mata tudo. Mata uma amizade, mata um amor, mata uma cordialidade. A PDR é um rolo compressor. Quantos humanos se separaram por culpa da PDR? Porque um acreditava numa coisa e outro acreditava noutra. E às tantas o que era apenas sobre um assunto qualquer passa a ser sobre as duas pessoas que debatem o assunto e que depois o discutem e depois se atiram uma à outra só porque sim.

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Só porque a PDR é assim. A PDR traz o pior de ti. Ordena-te. Não queres deixar de ter a última palavra. Não queres deixar de sair a ganhar. E ofendes. E atacas. E vais em frente para não recuares.

De entre os motivos para seguir em frente, não recuar é de longe o mais palerma de todos.

Que se dane a última palavra, que se dane a tua opinião. Mete a tua opinião onde bem te apetecer mas não queiras metê-la no outro à força toda. Não deixes que a PDR te ordene. Não deixes que a PDR te ordenhe. É isso o que ela faz: vai-te ordenhando. Lentamente. Dolorosamente. Vai-te retirando discernimento, capacidade de avaliação, juízo de valor. Faz-te dizer o que não queres dizer só porque ouviste o que não queres ouvir. De seguida vais ouvir de novo (ainda mais fundo) o que não queres ouvir e vais dizer de novo (ainda mais fundo) o que não queres dizer.

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E vai doendo cada vez mais longe. E vai ficando cada vez mais irrecuperável. Nunca ninguém regressou ileso da PDR.

De entre os motivos para ficar ferido, querer impor uma opinião é de longe o mais palerma de todos.

A grandeza de um Homem vê-se naquilo que faz para defender a PDR. A grandeza de um Homem está na grandeza da sua PDR – mas em proporção inversa. Quanto maior for a PDR menor é o Homem. Um Homem que se desgasta, que se gasta, que desgasta e gasta os outros, só por culpa da PDR, só para querer mostrar que tem razão, que afinal o melhor shampoo é o X e não o Y, ou que a praia da esquerda é melhor do que a praia da direita, ou que o Ronaldo é melhor do que o Messi e o Pelé é pior do que os dois, é um anão, um minorca, um pequeno coitado. Lutar por uma opinião é engraçado; magoar pessoas e ser magoado por pessoas para lutar por uma opinião é burro. E é perigoso. Extraordinariamente perigoso.

De entre os motivos para correr perigo, magoar pessoas é de longe o mais palerma de todos.

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Recuar perante a PDR é a solução. Mandá-la bugiar. Não ceder à sua tentação. Eu sei que ela seduz – oh, como seduz. Apalpa-te com a possibilidade de seres o maior do teu bairro, beija-te com uma espécie de glória pessoal (que depois perceberás que não vale a ponta de chavelho), convida-te para te deixares enredar nos seus braços intermináveis, nas suas vãs coroas de glória. Mas no final vais ficar tu e a solidão incomparável das palavras estúpidas que disseste, tu e a certeza absurda de teres perdido tempo (e queira Deus que não tenhas perdido também pessoas) com algo que não valia um segundo de ti, um minuto do teu esforço, um momento da tua capacidade intelectual. O grande intelectual não é o que procura a PDR; é o que a ignora. O que não quer conquistar; o que só quer pensar. O grande intelectual não quer saber da razão, até porque ter razão não faz parte do seu processo de assimilação da realidade. O grande intelectual não quer saber da validação externa da razão. E tem razão.

De entre os motivos para pensar, conquistar validação externa é de longe o mais palerma de todos.

Por isso vai. Vai pedir desculpa a quem magoaste só para teres razão. Vai respirar fundo quando te apetecer praguejar contra quem pensa diferente de ti, contra quem vê diferente de ti, contra quem sente diferente de ti. Vai agora. Vai já. Podes até pensar que já não vais a tempo, que quando chegares já não podes remediar o que a PDR arrasou. E provavelmente até tens razão.

  #Literatura