Até onde chega o que não suportas?

As grandes diferenças nas pessoas sobrevêm no que acontece em dois planos: em primeiro plano, no tempo que demoram a não suportar mais algo que vão aguentando; em segundo plano, naquilo que fazem quando deixam de suportar aquilo que já não conseguem ir aguentando.

Como sobreviver ao que não suportas mas não aguentas se deixares de suportar?

Há, no fundo, quatro tipos de pessoas: as que demoram uma eternidade a deixar de suportar o que vão aguentando – mas que depois, quando não suportam, explodem de vez, não deixando qualquer possibilidade de reconstrução do que quer que havia antes; as que demoram uma eternidade a deixar de suportar o que vão aguentando – e que depois, quando não suportam, conseguem evitar a explosão total, preferindo uma implosão altamente dolorosa mas ainda assim capaz de permitir uma reconstrução; as que demoram muito pouco tempo a deixar de suportar o que vão aguentando – e que depois, quando não suportam, explodem de vez, não deixando qualquer possibilidade de reconstrução do que quer que havia antes; as que demoram muito pouco tempo a deixar de suportar o que vão aguentando - mas que depois, quando não suportam, conseguem evitar a explosão total, preferindo uma implosão altamente dolorosa mas ainda assim capaz de permitir uma reconstrução.

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Estou cansado de ir aguentando mas tenho medo de ficar cansado de não ter nada para ir aguentando.

E depois existes tu e depois existo eu: não sei que tipo de pessoa és e não sei que tipo de pessoa sou. Nunca sei quando vais explodir, quando vais implodir; nunca sei quando vou explodir, quando vou implodir. E perco-me. Perco-me em mim, no que devo fazer. Se devo gritar ou chorar, tentar ou parar, falar ou calar. Sou um menino em mundo de adultos, um desgraçado de um burro a olhar para um palácio, quando colidimos. E por que raios colidimos tantas vezes afinal se há tanto que nos une? Damo-nos tão bem (damo-nos mesmo: eu dou-me e tu dás-te) todos os dias – e depois chega uma palavra qualquer, um gesto qualquer, uma desatenção qualquer, um atenção demasiada qualquer, e outra vez uma explosão, outra vez uma implosão, outra vez um labirinto infindável, as tuas lágrimas, as minhas ideias de fuga desde já, para já, porque não suporto isto que vou aguentando, mesmo que não saiba (não sei mesmo) de onde veio isto.

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Seremos pessoas de tipos diferentes, tipos de sangue emocional diferentes, incombináveis? Ou apenas temos limites diferentes, distâncias diferentes entre o que nos impede de continuar e o que nos faz ter ainda mais força para continuar? Onde ficamos quando ficamos sem saber onde estamos?

Hoje abandono-nos de vez, e regresso de vez logo a seguir.

Custa tanto ir e custa tanto ter de voltar. Moramos num bairro diariamente devastado por tornados violentíssimos, irrecuperáveis. E depois recuperamos milagrosamente, encontramos tijolos no meio de calhaus, fazemos de cartão parede e de árvores telhados – as televisões entrevistam-nos: “como conseguiram sobreviver a isto, como conseguiram sobreviver a mais isto?” O Guiness quer dar-nos um recorde que nem sequer havia criado: “sabem que nunca nenhuma pessoa tinha conseguido viver tantos milagres até hoje?” A Igreja quer-nos santificar: “onde querem as estátuas, mandou-nos o Santo Padre perguntar”. E todos os dias nos desalojamos e voltamos a realojar-nos.

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Destruir, construir, destruir, construir: eis os nossos dias, os nossos deliciosos (tão bons, tão bons, o nosso beijo, as nossas brincadeiras, as nossas parvoíces inimitáveis) e dolorosos (dói tanto, o choro, a sensação de território estupidamente deserto no peito, a separação inexplicável) dias. Ficamos num intervalo de mágoa, um limbo de ressentimento, um corredor de agonia – uma procissão de fé em que ambos sofremos mas da qual demoramos a conseguir sair, mas da qual conseguimos sempre sair. Somos absolutamente incompatíveis e totalmente apaixonados. No final só um vencerá. Espero que sejamos os dois. Sim: a matemática que se dane.

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