AMOR: o mesmo que vida. Por mais elaborações científicas que os grandes especialistas no corpo humano nos ofereçam, é o amor que nos permite estar vivos. Sugerimos, por isso, até, a criação de um Zoológico de gente sem amor, para onde seriam enviados todos aqueles que são incapazes de se apaixonar – por um livro, por uma pessoa, por um projecto, por um trabalho, pelo sol, pela chuva, pela comichão, pela falta de comichão, pelos cheiros, pelos toques, por todos os sentidos mesmo (ou sobretudo) os que não fazem sentido nenhum. A criação desse Zoológico permitiria, desde logo, alcançar dois resultados imediatos e altamente satisfatórios: por um lado libertaria o mundo, o mundo dos dias que correm e saltam e vivem, desse tipo de criaturas, capazes de, com a sua falta de amor, deixar vírus purulentos nos mais variados locais, o que representa um incalculável risco para a saúde pública; por outro lado faria com que, sempre que os digníssimos militantes do PPACCNTMNA (Partido das Pessoas que Amam Comó Caneco e Não Têm Medo Nenhum de o Assumir) estivessem com dilemas existenciais (exemplo: será que vale a pena amar? não será melhor desistir de sonhar? será que estou a entregar-me demais, a expor-me demais?), pudessem visitar, como tratamento prescrito com urgência, estes locais para perceberem o triste estado dos seus moradores, as suas rotinas enfadonhas e cinzentas, a sua incapacidade para encontrarem no que têm aquilo de que de facto necessitam, a sua completa inexistência de sonho.

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Deus nos livre.

INVEJA: um mito urbano. Usado, frequentemente, pelos membros do PPMVCO (Partido das Pessoas Maria Vai Com as Outras) para justificar algumas das coisas que são ditas e feitas por este mundo fora. Mas na verdade a inveja não existe – a inveja é uma construção ficcional, uma fábula moderna, justificada pela necessidade de encontrar sempre algo de mau em coisas boas. Existem, ainda assim, dois lados desta palavra: o bom, a que erradamente se chama inveja mas que não é mais do que ambição e capacidade de trabalho (exemplo: alguém escreve muito melhor do que eu e eu, por causa disso, vou tentar escrever sempre mais e melhor para que alguém, um dia, também tenha esse tipo de vontade ao ler-me); o mau, que faz com que muitas pessoas tentem destruir outras pessoas só porque fizeram ou têm ou são algo que eu não fui capaz de ser – a este último caso não se pode, como é evidente, chamar inveja, uma vez que se trata claramente, e unicamente, de estupidez (ou, se preferirem, imbecilidade, ou desumanidade, ou palermice, ou debilidade, ou parvoíce).

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Deus nos livre. #Literatura