Quando leres estas palavras provavelmente já me terá aparecido mais uma borbulha na cara, já terei chorado mais umas quantas vezes porque sou provavelmente a pessoa mais feia do mundo e porque, na verdade, a mulher que eu amo nunca será minha. A vida é uma merda quando se é como eu, um quase-criança-quase-adulto, um quase-humilhado-quase-respeitado por toda a gente. Sou um morador de uma terra de ninguém, uma pessoa sem encaixe possível no que me rodeia.

Sou um extraterrestre de mim mesmo, é isso o que sou.

Nada do que faço está bem feito. Se quero jogar playstation sou infantil, se quero sair à noite tenho a mania de que sou grande.

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Estou apeado num lugar em que nenhuma decisão depende de mim, em que tudo me passa por cima, pelo lado, por baixo. Tudo se passa apesar de mim. E tudo o que passa por mim me dói. Sou um monte de dúvidas, um monte de insuficiências, um monte de sonhos e um monte ainda maior de pesadelos. Sou um não-ser.

Sou o que nunca fui e o que nunca voltarei a ser, é isso o que sou.

E depois acontece o futuro. É isso o que me acontece todos os dias: o futuro. Não faço ideia do que me acontecerá mas não quero ser mais um. Não quero a rotina triste do meu pai, a rotina triste da minha mãe. Quero o imponderável, quero a surpresa, quero a euforia. Quero amar, quero dançar, quero viajar, quero imaginar e depois quero realizar tudo o que imagino. Quero pelo menos mudar o mundo como os poetas o mudam. Quero pelo menos fazer o que me apetece, quando me apetece.

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Quero estar contra a sociedade, contra o que é imposto, contra os professores, contra os que não sabem nada e me acusam de nada saber. Quero a rebelião, a revolta. Lutar contra o que só pode ser.

Sou o que sei que se calhar nunca poderei ser, é isso o que sou.

Todos me criticam porque ninguém sabe onde estou. Na minha idade a solidão acontece. Porque os que não têm a minha idade se estão nas tintas para os que estão na minha idade, chamam-nos palermas, inconsequentes, criaturas incapazes, paradigmas de uma sociedade falida; e porque os que têm a minha idade estão demasiado perdidos nas suas próprias dúvidas, demasiado fechados em si mesmos, para poderem olhar à volta e perceber que há outros assim, outros ali, ao lado, no mesmo lugar, com as mesmas dúvidas, as mesmas inquietações. Ninguém olha para mim.

Sou o que percebe que ninguém o olha porque está sempre a olhar-se, é isso o que sou.

Sei que penso demais. Sei que questiono demais. Sei que não devia magoar-me não saber quem sou, por que sou, por quem sou – até de quem sou.

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Mas magoa. Não deixa de magoar. Sei que não devia magoar-me ouvir uma simples música, ler um simples texto, receber um simples e-mail. Mas magoa. Às vezes magoa. Às vezes tudo magoa.

Sou uma criatura às vezes toda magoada, é isso o que sou.

À minha frente só um muro. À minha volta só um muro. Uma rua fechada. Uma asfixia constante. Uma sensação de pescoço apertado, um medo silencioso, uma agonia opressora. Ou tudo ou nada. E um pessimismo confortável. Sento-me para sofrer, fecho-me para sofrer. Há tanto para sofrer. O corpo em obras, as noites de estudo, os colegas cruéis, o amor por corresponder, o desejo nunca saciado, a incompreensão dos pais. Há tanto para sofrer e tão pouco para rir. É claro que me rio muito, que brinco muito, que passo a vida a dizer piadas aos meus amigos. É claro que me vou aguentando. Mas por dentro pouco se mexe. O optimismo dá muito trabalho e parece-me oco. Nada é mais grave do que crescer. E eu não paro de crescer. Apetece-me o que só os adultos têm e não deixa de apetecer-me o que só as crianças têm. Apetece-me tudo o que ainda não tenho e tudo o que já não tenho.

Sou sobretudo o que já não tenho, é isso o que sou.

Quando leres estas palavras provavelmente já me terá aparecido mais uma borbulha na cara, já terei chorado mais umas quantas vezes porque sou provavelmente a pessoa mais feia da escola e de todo o mundo e porque, na verdade, a mulher que eu amo nunca será minha. E tu: quantas lições aprendeste entretanto? #Literatura