Continuar todos os dias faz chorar.

O passado sobrepõe-se, teimoso, e damos por nós a perceber que já não somos crianças, que já não somos sequer jovens. O tempo passa e leva-nos com ele. Ganhamos tanto e fica sempre a sensação de que perdemos tanto também. A vida prossegue e o corpo prossegue. Tudo a caminho do final. E nós no meio, perdidos, a cabeça sem saber se é corpo se é alma.

Viver todos os dias é maravilhoso e não deixa de ser horrível.

As responsabilidades apertam, comprimem. Quanto mais cresces menos podes cair. Menos há margem para queda. Um adulto é sempre uma criança com excesso de responsabilidades. Com excesso de obrigatoriedades.

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Uma criança é feita para cair, um adulto é feito para se levantar. Todos os dias levantar. Perde-se o emprego e tem de se levantar. Perde-se um amigo e tem de se levantar. Perde-se uma oportunidade e tem de se levantar. Perde-se tudo e tem de se levantar.

Levantar todos os dias magoa.

E o cinzento estrangula. Coloniza. Integra-nos inteiros. Distraio-me um segundo e já estou nele: completamente cinzento, uma malha absurda de mais-ou-menos, uma teia irrespirável de meia-felicidade-meia-infelicidade. O ramram não é um onomatopeia; é uma doença. A rotina contagia – mas contagia porque não consegue contagiar. A rotina contagia pela incapacidade de emocionar, de mover, de abalar. Repetir apenas o irrepetível: eis o que temos de procurar.

A emoção todos os dias corrói mas não ter emoção todos os dias mata.

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Ontem era jovem e tinha todos os sonhos do mundo; hoje sou um quase-velho e tudo o que consegui foram quase-sonhos. Já fui feliz. Claro que já fui feliz. Já consegui abraçar, beijar, amar. Mas sabe sempre a pouco. Viver sabe sempre a pouco. E há dias em que viver sabe a demais. Dias em que é urgente deixar de viver. Time-out. Standby. Ficar apenas por ali, a olhar de fora para dentro de nós; tentar entender o que somos, o que queremos. No fim, tudo continuará na mesma e nada ficará como dantes.

Tudo continuar na mesma e nada ficar como dantes todos os dias cansa.

Sou um adulto e não sei quem sou: eis a única declaração possível. Eis a única verdade possível. Quero ser a criatura mais feliz do mundo e lutarei até ao fim dos meus dias para isso. Mas talvez seja isso, essa fúria de felicidade, essa luta imparável, que me impede de ser feliz. Talvez queira demais ser feliz. Talvez ame demais, talvez exija demais. Mas só o que é demais não é erro.

Há dois dias era um puto e dentro de dois dias sou um velho: aqui jaz um adulto.

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É por isso, por serem actores da verdadeira adolescência, o estado de transição entre o começo e final, que os adultos nunca serão criaturas livres. Porque não são capazes de não pensar como as crianças, porque não são capazes de não pensar como os velhotes. Os adultos têm muito a perder e é por isso que se perdem. Perdem-se na carreira que querem ter, na família que querem ter, no futuro assegurado que querem ter. Os adultos perdem-se no que querem ter e esquecem-se do que já são. A vida, para um adulto, é aquilo que acontece enquanto estão que nem estúpidos a pensar na vida. Um adulto está no pico de tudo e raramente consegue sair do chão.

Pensar na vida todos os dias aborrece.

Os adultos são uma seca. Eu sou uma seca. E o pior é que sei que sou uma seca. Sei que já não tenho a paciência que tinha para aguentar o que tenho de aguentar. Sei que poderia rir mais, que poderia tentar mais, que poderia voar mais, que poderia amar mais. Mas falta-me juventude para isso. Falta-me coragem para isso. Penso no que posso perder e abdico do que posso ganhar. Os adultos são uma seca. Os adultos são uns bananas.

Ser banana todos os dias arrelia.

Eu sou um adulto e sou feliz: quantas vezes o dissemos – e sentimos - mesmo?

  #Literatura