Quando leres estas palavras provavelmente já eu estou na casa do Zé, o do 11º andar, aquele que está sempre com macacos no nariz mas não deixa de ser o meu melhor amigo. Os adultos ligam a coisas ridículas como macacos no nariz. Dizem que fica mal e que é uma falta de educação e essas tretas todas. Ainda bem que eu já passei essa fase. Agora gosto é de brincar.

Acho que gostar de brincar é uma prova de maturidade (é assim que se diz, não é?).

Quanto mais se brinca mais se ri. E se não estivermos aqui para rir mais vale não estarmos, digo eu, que sou apenas uma criança e ainda não sei nada da vida. Hoje já me ri muito, e só por isso já valeu a pena acordar.

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Eu adoro acordar. É uma melhores coisas do mundo. Estamos ali parados, de olhos fechados, e tudo está a acontecer lá fora. Há a escola toda para aprender, os amigos todos para falar, o recreio inteiro para correr, os pais inteiros para abraçar. E nós ali, quietos, de olhos fechados. Sem apreciar nada daquilo. Que seca. Eu gosto é de acordar.

Acho que gostar de acordar é uma prova de maturidade (é assim que se diz, não é?).

O mais incrível nesta coisa de viver é que acontece todos os dias. Todos os dias podemos viver. Basta querer. Basta estar. Estamos aqui e podemos viver. É espantoso, não achas? Eu gosto é de acordar. Levantar-me num salto (ontem consegui dar o melhor salto de sempre quando me levantei: abri os olhos, ouvi a voz do meu pai, ouvi a voz da minha mãe, e zás, levantei-me de um salto só, parecia o Cristiano Ronaldo a saltar para a bola quando marca um golo de cabeça, é o maior), rir-me que nem um maluco com as piadas do meu mano mais velho (ter um mano é como ter mais um pai e mais um amigo, se bem que pai e amigo para mim são a mesma coisa, nem sei para que existem as duas palavras, os adultos adoram complicar), tomar o pequeno-almoço (quem inventou o pequeno-almoço era mesmo esperto, o pequeno-almoço serve para comer mas serve muito mais para gostar das pessoas, é como se já estivéssemos com saudades delas, eu pelo menos quando acordo já tenho saudades da minha mãe, do meu pai, do meu mano, o pequeno-almoço é para matar as saudades deles, e para brincar, claro, mas tudo existe para brincar, essa é que é a verdade), e em poucos minutos ir para escola quando é dia de escola ou ir andar de bicicleta quando não há escola.

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E o mais incrível, não sei se já disse, é que isto se repete todos os dias. Todos os dias. É incrível.

Acho que gostar de viver todos os dias é uma prova de maturidade (é assim que se diz, não é?).

Sou o mais rápido abraçador cá de casa. Fizemos o teste há uma semana e eu ganhei. Demorei menos de três segundos desde a cama até ao abraço da minha mãe. O meu mano demorou mais dois segundos. Também é bom, claro, até é normal que demore mais, ele já está a ficar velhote, vai fazer dez anos em Novembro. Às vezes penso na velhice e acho que deve ser uma coisa fixe. Os velhotes sabem tanta coisa e já não precisam de ir à escola. Podem passar o dia a brincar, e se isso não é uma das maiores sortes do mundo então eu não percebo nada de vida nem de sorte. O avó Manel é o velhote mais lindo de todo o universo. Vai comigo ao parque e nem se chateia que eu fique lá duas ou três horas. Só fica a olhar para mim, com um sorriso que não passa, e vai-me acenando com uma mão e limpando com a outra uma ou outra lágrima que lhe cai.

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Parece que as memórias fazem chorar, e os velhotes têm mais memórias do que sonhos. Deve ser essa a parte pior de ser velho, mas tem de ser. Se não existissem coisas que têm de ser nunca aconteceriam coisas que nós adorámos que fossem. Por exemplo, se eu não tivesse de ir para a escola nunca teria conhecido os melhores amigos do mundo, já viste?

Acho que gostar do que tem de ser é uma prova de maturidade (é assim que se diz, não é?).

Quando leres estas palavras provavelmente já eu estou na casa do Zé, o do 11º andar, aquele que está sempre com macacos no nariz mas não deixa de ser o meu melhor amigo. E tu: com quem vais estar a rir? #Literatura