Não existem vidas grátis.

Tens de ir à procura de merecer a vida que tens, a vida que queres. Atira-te. Esfrangalha-te todo, se for preciso. Mas também não temas preguiçar-te todo, vezes sem conta, se for preciso. O que é preciso é que sejas capaz de conquistar a vida. Arrebatá-la. Merecê-la. Sê credor – daqueles credores chatos, que cobram com persistência e sem misericórdia – do que és merecedor. E só do que és merecedor. Se não mereceste nunca aconteceu. Merece-te. E siga.

 

Não existe displicência feliz.

A displicência mata. Muito mais do que tudo o resto. A displicência mata, consome, aperta por todos os lados. O displicente deixa-se atropelar pela incapacidade de superar.

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Nunca nenhum displicente mudou a ponta de um corno no mundo. Nunca ninguém displicente soube o que era a euforia. Nenhum orgasmo é displicente. É isso o que, mais do que tudo o resto, não deves tolerar: a ausência de luta, até à ultima possibilidade, pelo orgasmo, pela euforia, pelo pico, pelo desassossego feliz e pela paz feliz. Quando te sentires capaz de ser tolerante perante a displicência foge. Foge rápido. E siga.

 

Não existem humilhadores; só existem humilhados.

Em cada humilhação há pelo menos dois seres humilhados. Quem humilha humilha-se. E avança em queda. Humilhar é avançar em queda – é a contra-humanidade. O humilhador coloca-se muito mais numa posição de escravo do que de escravizador. É escravo da sua efémera necessidade de humilhar. E nada é mais humilhante do que um humano que procura valorização na desvalorização do outro.

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Humilhar humilha-te. Quando te sentires humilhado sorri, levanta a cabeça. Não percas um segundo a humilhar de volta. Nenhuma humilhação se devolve – até porque, por ser humilhação, já está devolvida por defeito. E por excesso. Repito: quando te sentires humilhado sorri. E siga.

 

Não existem defeitos; existem singularidades.

As tuas singularidades e as singularidades dos outros. Esquece os que te exigem que mudes o que julgam que é mau. Exige-te, apenas, a manutenção íntegra, e intocável, do que pensas que és – e do que pensas que deves ser. O que és é uma construção objectivamente – e profundamente - tua. Não permitas interferências. Quem te vê não está a ver-te; está a ver-se através do que lhe dás. Não dividas o mundo em certo ou errado. Não dividas, sequer, o mundo. Dividir o mundo divide-te. E é isso – dividir para reinar – o que deves evitar. Comanda-te. Ordena-te. Não dividas nem te dividas. Nem sequer adiciones nem te adiciones. Se queres optar por uma operação matemática: multiplica-te.

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E siga.

 

Não existem voos se não existirem locais de aterragem.

Voar não consiste, apenas, em andar no ar; voar consiste, também (talvez sobretudo), na capacidade de entender quando e onde se pode levantar voo; e, mais ainda, quando e onde se pode pousar. Não queiras estar sempre em voo. O pássaro feliz não é só aquele que tem onde voar; é também aquele que tem onde pousar. Pousa. Não penses que pousar é uma seca. Não. Pousar é o outro lado da adrenalina – a adrenalina pacífica, serena. Serena quando serenar é urgente. Pousa-te sobre ti, olha-te com atenção. Percebe se está tudo em ordem com aquilo que te faz voar. Sem medo de tocar na ferida – tocar na ferida, se for feito como deve ser, é a única forma de a curar. Cura-te antes de voares. Estuda sempre que possível, ainda, os locais de aterragem. Ou então não estudes nada mas tem em ti pelo menos dez ou vinte pára-quedas prontos. Se um falhar tens outro e se outro falhar tens outro. É certo que o perigo pode trazer felicidade; mas a morte, é pelo menos essa a ideia que eu tenho (contrarie-me quem já a tiver experimentado), não traz felicidade nenhuma. O voo consiste em todo o processo que te leva do chão ao ar – e é muito mais do que somente andar no ar. Pensa nisso. Sente isso. E siga. #Literatura