Soubesse eu que era o que eu queria, o que eu sempre quis, que me devia comandar – e não o que os outros me queriam, o que os outros sempre me quiseram. Que era dos meus desejos, e não dos desejos que os outros tinham para mim, que se devia ter feito o meu caminho. Soubesse eu que a diferença estava tantas vezes na minha mão e talvez pudesse ter vivido mais.

 

Só decide mal aquele que talvez pudesse ter vivido mais.

 Soubesse eu que não valia a pena ter trabalhado tanto. Que a vida não existe, nunca existiu, para sermos escravos dela, para lhe darmos o que nunca ela nos pediu, o que nunca ela sequer aflorou ao de leve.

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Soubesse eu que trabalhar não era o que eu sou, trabalhar nunca é o que nós somos, como o dinheiro que temos nunca é o que temos, como as casas que temos nunca são o que temos.

 

Só é velho aquele que talvez pudesse ter vivido mais.

 

Soubesse eu que não custava nada e valia tanto ter tido a ousadia que não é ousadia nenhuma de dizer o que sinto. De mostrar sem medo que amei – e amei tanto; de dizer sem medo que gostei – e gostei tanto; de expressar sem medo que fui feliz – e fui tão feliz. Perdi o que já tinha ganho quando não tive a coragem de dizer que já tinha ganho tanto. Soubesse eu que há alturas em que dizer é mais importante do que sentir e talvez pudesse ter vivido mais.

 

Só é defeito ser tímido quando a escassez de palavras impede de ter vivido mais. Soubesse eu que nenhum motivo valia estar longe dos que amo.

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Dos meus amigos, dos meus pais, dos meus irmãos, de todos aqueles de quem gosto e que gostam de mim. Era tão fácil uma mensagem, tão fácil um telefonema, tão fácil uma visita, um café, uma cerveja, uma tarde na praia ou dois minutos de anedotas.

Soubesse eu que ser feliz também é uma escolha, que apesar de tudo o que não tem remédio há muito que podemos remediar. Percebi tarde demais, quando já pouco havia para escolher. E fica o arrependimento. O sacana do arrependimento. O que poderia ter sido corta-me como uma navalha aguçada. Tenho saudades do que poderia ter sido, do que afinal de contas tive tantas oportunidades para ser. Mas houve o orgulho, o medo, a ansiedade, a revolta, a raiva, o ódio, a inveja, a vaidade. Os defeitos são defeitos pelo que nos impedem de ser – e não por um estéril ideal filosófico ou teológico. O pecado é deixar de fazer, deixar de tentar. Soubesse eu que tinha tanto poder nas mãos e talvez pudesse ter vivido mais.

 

Só é impotente quem desistiu de cair. #Literatura