1. E se fores tu o maior e os outros forem estúpidos?

Pode muito bem acontecer isso – até porque, sejamos claros, não faltam pessoas estúpidas no mundo. O que, desde logo, faz com que não seja muito improvável seres, pelo menos, menos estúpido que grande parte das criaturas que te rodeiam. Aproveita-o. Fica feliz. Não te culpes por, aqui e ali, seres algo idiota, algo imbecil, algo limitado. São as limitações, mais do que as possibilidades, que te permitem encontrar novas soluções. A criatividade só existe porque existem limitações. Por isso: sê o maior. E que sa lixe.

 2. Há coisas que só se consegue ver distraído.

É esse, provavelmente, o grande motivo para as faltas de atenção: permitir-nos entender, e observar, o que não poderíamos entender nem observar se estivéssemos sempre concentrados no que estamos a fazer.

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Vai com a corrente – mas não te afogues nela. Não nasceste para trabalhar – nasceste para o que bem te apetecer. Não coloques um FMI emocional a dirigir-te os passos. Governa-te como puderes, como souberes. Mas acima de tudo como te der na real gana. Por isso: distrai-te. E que sa lixe.

 3. O imprevisto é uma das melhores partes da vida.

Explora-o. O imprevisto existe para te devolver a atenção ao que passa diante de ti. Se só te acontecesse o que já sabias que iria acontecer-te nem sequer precisarias de estar atento. Ias em piloto automático, em modo estou-mas-nem-precisava-de-estar. O modo estou-mas-nem-precisava-de-estar é o modo mais diabólico em que podes estar. O modo semi-vivo, um coma induzido. Prefere o modo estou-e-tenho-sempre-de-estar. Prefere, até, o modo estou-para-não-deixar-de-estar.

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Prefere todos os modos menos o modo estou-mas-nem-precisava-de-estar. Está. Está sempre. Não tenhas medo do imprevisto – até porque não o podes evitar. Explora, até à demência, o que ele tem para te dar. A vida que ele tem para te dar. Noventa por cento das maiores felicidades da tua vida foram imprevistas. E os outros dez por cento ainda não aconteceram e nem imaginas quando vão acontecer. É uma delícia, não é? Por isso: atira-te para o que nem imaginas o que é. E que sa lixe.

 4. O prazer achincalha a dor.

É esse o segredo. É exactamente esse o segredo: fazer do prazer um anti-dor. Vai-te doer muito, vai-te doer tanto, estar vivo. E depois tens duas saídas: ou deixas que te doa e esperas que passe; ou deixas que te doa e passas-te. E é aqui, nesta segunda possibilidade, que entra o prazer. O prazer faz-te ficar passado da cabeça. E ficar passado da cabeça é humilhar a dor, espezinhá-la, pisá-la sem misericórdia. O prazer é essa luciferina, de tão boa, criatura: a que mostra à dor que afinal há algo mais forte, mais intenso, mais imenso.

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No fundo: algo mais vivo. O prazer é o mais perfeito sinónimo de vida. Ou então não vives vida nenhuma. Por isso: orgasma-te todos os dias a vida. E que sa lixe.

5. A vida vale pelo que não deixamos que ela nos faça.

Tu sabes: a vida é uma cabra. É uma vacarrófia que te coloca obstáculos, que te deixa ferido, que te mói a paciência, que te traz o amor e às vezes to tira, que te mostra o sol e que fica meses sem to deixar prová-lo. Resumindo: a vida é uma besta. E para besta: besta e meia. Ou duas bestas. Ou três ou quatro bestas. Para fazeres frente à besta da vida tens de ser uma besta também. E a vida é bestial quando se aprende a ser besta. Se ela quer magoar-te, não deixes. Tens é de ser cabra ou cabrão suficiente. Não tremas. Ou treme. Mas treme sem ela notar. A vida tem faro para o medo. E é então que chega e ataca. E é no confronto entre o ataque dela e o teu ataque ao ataque dela que se define o que a vida vale, afinal. Se fores capaz de ripostar vais ver que ela recua e fica um amorzinho. Mas nunca confies que ela está amestrada. Nunca. A vida nunca está amestrada. Não existe nenhuma vida de estimação. Mas não é por isso que a vida deixa de ter um preço inestimável. Por isso: sê besta para seres bestial. E que sa lixe.

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