A paz acalma e desassossega em doses iguais. O mundo parece parar para nos ver respirar nestes dias. Como se preparasse alguma – e é assim que a guerra chega. Ninguém suporta a absoluta quietude. A absoluta quietude é promessa de um qualquer perigo. Nada é imutável – sobretudo a vida: a nossa percepção da vida.

O que me fazia feliz ontem entristece-me hoje.

A incoerência é, com o erro, a presença da humanidade. Somos humanos porque mudamos: porque somos capazes de mudar. Temos todos a faculdade, e a necessidade, de mudar de local, de encontrar novos lugares no interior do tempo.

Não são os burros que não mudam; são os mortos.

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Sou uma mulher feliz e até isso assusta. A felicidade assusta, saber que nada me falta assusta, saber que tudo está bem assusta. O que mais provoca a infelicidade é por vezes a sua ausência – e a certeza de que um dia ela chegará. A infelicidade invariavelmente chega. Mas a felicidade também.

O optimismo não é ver o copo meio cheio; é estar constantemente a encher o copo.

O mais doloroso e mais fascinante é que o copo nunca está sempre cheio e nunca está sempre vazio. Falta sempre algo e há sempre algo. Quis ser casada com o homem da minha vida e sou. Há uma vida que sou casada com ele. Houve já muito a perder-se entre nós. Já não nos desejamos como dantes – mas ainda nos desejamos tanto. Já não nos procuramos como dantes – mas ainda nos procuramos tanto. Já não nos beijamos tanto – mas ainda nos beijamos tanto.

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O amor é apenas aquilo que continua a ser.

E depois há muito que não tínhamos e agora temos. Juntamo-nos para lutar e vamos ganhando. Não podemos dizer que não custa. Custa toneladas. Mas puxamos. Continuamos a puxar. E quando nos amamos mais foi quando tivemos de puxar mais. Os dois pelos dois.

O amor é apenas aquilo que sobra da dificuldade.

Sobra mais do que o que tínhamos no começo. Sobra um amor maduro mas não parado. Sobra um equilíbrio sólido mas nunca o tédio. Sobra ainda a surpresa que vamos conseguindo trazer. No outro dia fizemos amor a noite toda e fomos felizes a noite toda. Fomos para um hotel e descobrimo-nos outra vez. É tão bom f**** com quem se ama.

Sou uma mulher sem medo das palavras mas mais ainda sem medo dos actos.

Nunca me deixei pousar. Pousar é a rendição, deixar o corpo a boiar no mar e esperar que as ondas façam o resto. Gosto de paz mas nunca me rendo. Gosto de quem me proteja e gosto de proteger. Gosto de ser frágil e forte. No mesmo dia, na mesma hora, no mesmo instante.

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Mas tento. Nunca deixo de tentar. Tenho tanto de heroína como de vítima. Sou a pobre coitada que nunca se deixa coitadar. O pior do mundo são as pessoas que coitadam. Que passam a vida a ser coitadas e que é por isso, só por isso, que são coitadas. Ser coitado não vem de fora; só de dentro. E é viciante. Coitadar é uma droga. Um conforto sempre à mão. É fácil, é barato, tira-te milhões. Impede-te de tentar porque tentar é escusado. Impede-te de esbracejar porque o afogamento é certo. Coitadar é simples, sedutor. Esmagador. Coitadar esmaga o que és. Coitada-te irremediavelmente. É claro que o mundo às vezes é um cabrão; é claro que a vida às vezes é uma cabra. Leva-nos pessoas, leva-nos coisas, leva-nos sonhos. Às vezes leva-nos mesmo tudo (ou o que julgávamos ser tudo). Mas viver é suportar todos os cabrões e todas as cabras que a vida tem para oferecer.

Por mais lágrimas que chore há sempre uma que me faz levantar.

O segredo é esperar que a lágrima que me revolta chegue. E depois obviamente revoltar-me.

Sou uma mulher infeliz e feliz todos os dias: nada mau, pois não? #Literatura