Ponto prévio: os Podia-seres metem-me nojo. Os Podia-seres irritam-me. Os Podia-seres tiram-me do sério.

Os Podia-seres são aqueles seres que passam a vida a dizer que podia ser – mas nunca é. Porque, afinal (e é isso o que mais me irrita neles todos), não podia ser. Nunca pode ser.

Mas os Podia-seres não fazem por mal. Os Podia-seres são apenas maus. E é assim que sobrevivem. Alimentam-se daquilo que eles acreditam – e acreditam mesmo, conseguem acreditar mesmo – que até podia mesmo ser. Mas depois percebem – por uma questão de preservação do seu universo de possibilidades (por auto-sobrevivência, na verdade) – que não há maneira de poder ser.

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É só assim que, para eles, continuar vivo pode ser.

Para os Podia-seres a vida é uma sucessão de oportunidades, sim – mas uma sucessão de oportunidades perdidas. Ora não pode ser porque ainda não jantaram ora não pode ser porque já jantaram, ou porque o periquito faz anos, ou porque fica longe demais, ou perto demais, ou porque têm de urinar ou porque não conseguem urinar, ou porque é fácil demais ou longe demais, ou porque é simplesmente demais ou porque é simplesmente de menos. Estes pobres coitados até podiam ser felizes – mas não pode ser.

Ser feliz exige trabalho, alguma dose de loucura e a capacidade de, por vezes, sujar as mãos para lavar a alma. E é isso – é tudo isso (ter trabalho, alguma dose de loucura e a capacidade de sujar as mãos) – aquilo que os Podia-seres não têm. Mas eu digo-lhes o que não pode ser.

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Não pode ser amar Podia-seres. Como amantes, não amam nada. Porque têm medo de arriscar, porque têm medo de tentar, porque têm medo de dar um passo maior do que a perna, porque têm medo, mesmo, de ter uma perna mais pequena do que o passo. A sua vida sexual é como ter todos os números de telefone sem ter telefone: sabe-se que seria possível chegar ao outro lado mas faltam instrumentos. Como amantes, estes seres não são uma desilusão – mas apenas porque, de tão insípidos, nem sequer chegam a criar um bocadinho de ilusão.

Não pode ser ter Podia-seres como amigos. Como amigos, são presenças mitológicas, uma espécie de lenda por consubstanciar. Diz-se que, um dia, foram capazes de ajudar alguém, ou até de se divertir com alguém, ou até mesmo de estar presentes quando alguém lhes pediu que estivessem presentes. Mas nunca ninguém o conseguiu, verdadeiramente, provar.

Não pode ser ter Podia-seres como governantes, como líderes, como decisores. Como decisores, tomam as melhores não-decisões do mundo, tens os melhores não-tomates do mundo.

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Conseguem imaginar tudo o que podia ser, colocam mil e um pontos no seu programa de actuação – mas nunca os executam. É bom que se decida não lhes oferecer qualquer decisão. É essa a única decisão que deve ser.

Os Podia-seres são, em resumo, não-seres. Melhor ainda: não-mexeres, não-existires, não-sentires. A segurança é o bem mais valioso de todos eles. Por ela abdicam de tudo, fogem de tudo, temem tudo.

Sonho com o dia em que todos os Podia-seres sejam exterminados, banidos da face (e não só) da Terra. A malta reunir-se-ia anualmente para a Queima dos Podia-seres, na qual seriam todos colocados num palco envidraçado, uma espécie de aquário, um Oceanário de Possibilidades, e onde todos eles seriam colocados perante mil e um desafios. Depois, seria um final de tarde bem passado, um sunset maravilhoso, vê-los a dizer que ah e tal, vamos fazer assim, ah e tal, vamos fazer assado, e no final, sem erro, todos ficariam exactamente como estavam no começo, sem mexer uma palha e sem um único desafio ultrapassado. Seriam, de facto, lusco-fuscos e serões bem passados. Mas as Organizações de Defesa de Direitos Humanos dizem que não pode ser. Chatas.

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