Depois da praga da malta que diz e escreve “houveram” como se não houvesse amanhã (e para essa gente a possibilidade de não haver mesmo amanhã não é despicienda), a que mais tem assolado a face da humanidade é a da chegada, em massa, de uma nova estirpe social: o pseudo. Mas quem é, afinal, esta criatura? Vamos – Deus nos livre – a ela.

O pseudo é o labrego dos intelectuais: o parolo dos eruditos. Para o pseudo, o importante não é saber – é mostrar que sabe. O que é, na verdade, a prova de que afinal sabe muito pouco. Ou nada, vá.

O pseudo pode até (embora esses casos sejam, na realidade, muito raros) ler muito, estudar muito, saber muito – e nem assim deixa de ser o maior dos ignorantes.

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O soberano dos obtusos. O imperador dos toscos. Porque ler, estudar e saber não são simples processos intelectuais; são, sobretudo, processos emocionais.

O pseudo é um analfabeto emocional, um mentecapto relacional: um amputado empático. O pseudo é um iluminado às escuras, o gajo que pensa que vai dar à luz um rei - e quando dá por ela tinha apenas acabado de defecar. Sim: o pseudo é uma bosta.

Apesar de ser um excremento, o pseudo permite, no entanto, algumas observações assaz interessantes. Por exemplo: nenhum pseudo gosta do que é bem sucedido. Se tem sucesso: é mau. Para estes reles indivíduos, só o que é alternativo é bom. Só o que não é conhecido merece ser conhecido. O mais curioso, no entanto, é que quando isso que eles tanto apreciavam passa (como eles tanto defendiam) a ser conhecido deixa imediatamente de ser bom.

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Mais irónico ainda é observar os casos, muito raros, em que o próprio pseudo tem sucesso. É então que, estranhamente, o pseudo deixa de ser pseudo e fica feliz, como qualquer pessoa, pelo sucesso que obteve. Seria, assim, extremamente útil para a saúde da Humanidade que os pseudos tivessem todos sucesso – mas já se sabe que um pseudo nunca terá muito sucesso, pelo simples facto de ser (adivinharam) um pseudo.

Uma das características mais repugnantes do pseudo é, sem dúvida, a sua incapacidade de produzir algo de relevante – a não ser ódio. O pseudo vive para o ódio, nasce para a crítica. Para o pseudo é tudo mau. Pior: é tudo horrível. Experimentem visitar algumas das páginas de Facebook dos muitos pseudos que andam por aí e confirmem: é tudo indecente, é tudo terrível, é tudo burro, é tudo uma trampa, ninguém sabe nada, ninguém pensa nada, ninguém vê nada, o país é uma desgraça, o mundo está a acabar, as cuecas cheiram mal, o iogurte está estragado, está vento na praia, está calor no campo, a água está fria demais ou quente demais, não há civismo, é tudo um bando de gatunos, ninguém ajuda ninguém.

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Ufa. Acabo de perceber que ser pseudo é, no final das contas, altamente desgastante. Deixem-me mudar de parágrafo para respirar um pouquinho.

Toda esta raiva do pseudo, bem vistas as coisas, até é fofinha. O ódio tem um lado útil: permite perceber a paspalhice que lhe está subjacente. A debilidade absurda de que é composto. É esse, no fundo, o papel fundamental do pseudo: permitir a todos os outros perceberem de que lado devem estar. Eu adoro, sempre que me sinto menos boa pessoa, passar os olhos por uma opinião escrita por um pseudo, ou ouvir durante alguns segundos (mais de um minuto já não aguento) um pseudo a falar. Fico logo de coração aberto, pronto para saborear convenientemente a vida. Devia ser obrigatório toda a gente ter o seu pseudo de estimação, bem fechadinho numa casota, para sempre que necessário ir lá vê-lo e ouvi-lo a rosnar, furibundo. Fica a ideia. Adoptem um pseudo. E sejam felizes.

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