O meu sonho é voltar a sonhar.

Só isso. Acreditar que há algo para sonhar. Um motivo, um só, para sonhar. Um álibi: basta um álibi. Uma possibilidade, por mais exígua que seja. Acreditar é morar no espaço exíguo de uma possibilidade. Acreditar é, em si mesmo, uma forma de sonho. Só quem acredita no sonho é capaz de sonhar. A velhice não é a presença de muitos anos de vida; é a ausência de muitos sonhos de vida.

O que custa mais no final de um amor é o final do sonho que esse amor representava.

Já fui criança mas depois sofri: é assim que se define a existência do amor e o seu final na vida de alguém. Há tantos amores que morreram por falta de sonho, provavelmente todos.

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Deixámos de tentar quando deixámos de sonhar.

Onde ficou a possibilidade de uma pequena ficção no meio da nossa verdade? A verdade é banha da cobra, uma fraude sem paralelo. A verdade está valorizada demais. A verdade que se dane. Não há verdade que mereça estar à frente da possibilidade de uma ficção a dois.

Quando se partilha uma ficção cria-se uma micro-verdade e é de micro-verdades que a felicidade é feita.

É isso, nada mais do que isso, uma relação profunda: a possibilidade de todos os constituintes dessa relação encontrarem numa micro-verdade o mundo todo. E eu encontrei. Fui até ao fim com eu inteira nos braços. Carreguei-me inteira até ti. E pesava toneladas vezes sem conta. Mas aguentei. Fui aguentando. Levei o que podia levar, suportei o que podia suportar, tentei o que podia tentar.

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Fui à procura do sonho onde nem a realidade ousava entrar: onde nem a realidade conseguia entrar.

Desistir de um amor é deixar que a realidade aconteça antes do sonho.

Aos poucos foste caindo ao chão. Vencido. Dobrado. Pisado e pesado. Os pés incapazes de voar. Os pés até incapazes de andar. Fomo-nos arrastando pelo interior do tédio. O tédio é um peso insuportável nos pés, uma inibição total de voar. Aqui e ali tentava a loucura.

É por vezes uma loucura que salva um sonho – e uma realidade.

Mas tu ficavas. Ficaste sempre. Quando se ama a solução nunca é ficar. Quando se ama a solução é o movimento. Ir daqui para ali. E dali para acolá. Até ser mais respirável. Até ser mais activo, mais dinâmico, mais tangível: mais vivo. Só um amor em movimento se mantém vivo. No amor como na vida: parar é morrer. E fomo-nos morrendo assim. Tu parado e eu em movimento a tentar movimentar-te.

Tem amiúde de ser um só a movimentar o amor de dois.

Mas não para sempre. Lentamente fui desistindo com a tua desistência.

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Lentamente fui baixando a fasquia dos sonhos. E o que era voo passou a ser corrida. E depois o que era corrida passou a ser passos. E finalmente o que era passos passou a ser paralisia. A mais absoluta, e dolorosa, paralisia. Tu parado no meio das tuas dúvidas. Tu parado no meio das tuas certezas palpáveis. Como se o que interessa na vida fosse palpável. Que parvoíce.

Perder um sonho é perder a capacidade de te moveres.

Uma pessoa sem sonhos é uma pessoa parada, constantemente a caminho de lado nenhum. De todas as doenças a falta de rumo é a que mata mais. É assim que estou, perdida por mais que ande, perdida por mais que corra, perdida por mais que voe. Um dia hei-de voltar a encontrar uma ponta de ficção na realidade que vivo. É esse, só esse, o meu sonho.

O meu sonho é voltar a sonhar. #Literatura