Vadiar está subvalorizado. Vadiar é olhado de soslaio pelos montes de bosta que julgam que sabem tudo, que condenam o sol porque aquece, a chuva porque molha, o vento porque despenteia. Defequemos neles. Vadiar urge, vadiar é preciso. O inferno não é o outro; somos nós – se não vadiarmos. Noventa e muitos por cento dos momentos inesquecíveis que viveste foram – pensa lá um pouco – aqueles momentos em que simplesmente desligaste o chip do que tinha de ser e resolveste vadiar. Vadiaste sem medo. Vadiaste como o vadio que és e que todos somos.

Todos nascemos vadios mas depois alguns morrem.

Abdicar de vadiar é uma forma de morte.

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Ou, pelo menos, uma forma de anti-vida: de contra-vida.

Mas vadiar responde a três mandamentos essenciais:

  1. Ter rumo. É fundamental perceber que vadiar só por vadiar é uma vadiagem oca. Uma pseudo-vadiagem. Uma vadiagem de trazer por casa. O Grande Vadio é o que vadia com intenção: com método, com rigor. Com classe. Por exemplo: um vadio de trazer por casa sai à noite porque julga que sair à noite é uma forma de vadiagem instituída, uma forma de vadiagem que tem de ser; o Grande Vadio, cheio de classe, só sai à noite quando sair à noite tem um propósito claro: encontrar um amigo, dançar como um maluco, conhecer um novo espaço nocturno ou experimentar uma bebida que só num determinado local é que existe. O Grande Vadio vadia com rumo, vadia com gosto, vadia com sentido. É um vadio gourmet, claro.
  2. Obter prazer. É sempre este o grande objectivo de um vadio que se preze. Enquanto que o vadio de trazer por casa vadia porque é a única coisa que sabe fazer, o Grande Vadio vadia apenas quando vadiar lhe traz prazer. Se, porventura, lhe traz mais prazer não vadiar, então não vadia nada. Fica por casa, tranquilo, a gozar o prazer imenso de, por vezes, não vadiar. Ou a vadiar na cama, a vadiar no sofá, a vadiar na varanda. O grande vadio sabe que a vadiagem exige critério, no mínimo, de excelência. Se não é excelente não é vadiagem; é mendigagem. Se não traz prazer não é vadiar; é estupidez. E um vadio estúpido não é vadio nenhum. É só estúpido.
  3. Delinear fronteiras. Qualquer um sabe vomitar por excesso de álcool – mas isso não é vadiar; qualquer um sabe fazer figura de urso no meio de uma pista de dança ou em cima de um balcão ou num qualquer karaoke – mas isso não é vadiar; qualquer um sabe, enfim, estragar tudo aquilo que de bom uma vadiagem traz; mas só o Grande Vadio entende que, para ser excelente, tem de ter fronteiras. Tem de ter limites. É claro que pode, aqui e ali, de acordo com o Mandamento Número Dois, ultrapassar esses limites. Mas raramente isso deve acontecer. Porque a fronteira entre a euforia e a depressão é ténue, há que manter a fasquia alta – mas quase nunca a ousar ultrapassar. Na maioria das vezes, querer ultrapassar uma fasquia alta demais não significa chegar mais alto; significa cair de mais alto. Vadiar tem de ser sinónimo de inteligência. E de amor também. O Grande Vadio ama a vadiagem – e faz, por isso, tudo o que pode para a manter assim: amável. Para não a estragar com excessos idiotas. O Grande Vadio é um apaixonado pela vadiagem. Um ser inteligente apaixonado pela vadiagem e por tudo o que ela representa.

Pensa nisso, meu vadio.

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