"Departamento de Especulações" (editora Relógio de Água), de Jenny Offill, chegou às livrarias portuguesas no final de julho e é um livro genuinamente fora do comum. "Complicado de definir". As palavras de James Wood, crítico da The New Yorker, são tomadas como sagradas por muitos fãs do meio literário. E, é claro, ele acertou. Pouco mais de um ano depois de ter sido lançado nos EUA, "Departamento de Especulações", de Jenny Offil, é um livro verdadeiramente "complicado de definir, porque aponta simultaneamente em várias direções". 

Com uma escrita fragmentária, volátil, Jenny Offill desconcerta o leitor com a quantidade de referências que evoca: Rilke, Horácio, Keats e Kafka.

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Mas, dito isto, o que é que Rilke tem em comum com a exploração espacial e cosmonautas russos? 

As "Especulações" de Offill levam-nos para a história de uma mulher, "a esposa", de voz corrosiva, que ambiciona ser "um colosso da arte", mas que vê o seu plano boicotado pela vida amorosa e pelo matrimónio. Após publicar um primeiro romance, casar e ter uma filha, acaba por aceitar ser ghostwriter de um "quase astronauta" russo.  

A meio da narrativa ocorre um dos momentos chave do romance: um dégradé do sujeito-narrador, o "eu" afasta-se da história. "A esposa" utiliza a gramática como uma defesa contra a narrativa de pessoal, uma forma de se tornar estrangeira a tudo que está a atravessar. Para lá da concretização literária, lembrando a escrita de Junot Diaz, Jenny Offill brilha ao colocar uma tocha no meio daquilo que o ser humano designa por casamento, desmascarando todas as rotinas e passividades que, por vezes, não são nomeadas.

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(Wittgenstein iria gostar de analisar este romance.)

Consciente da sua solidão ontológica, a narradora tenta ao longo do romance ler o mundo, tudo o que lhe acontece, e disseca as emoções que a atravessam, num processo ao mesmo tempo violento e acutilante. E não falha, apesar do final poder ser dececionante para alguns leitores.

"Departamento de Especulações" é um romance arriscado, que exige uma leitura galopante e que teria muito por onde falhar, mas que tem uma concretização mais do que apurada. Jenny Offill sabe perfeitamente, como escreve a dado momento, que "a arte é o resultado de termos estado em perigo".  #Livros #Literatura