O hóquei em patins atravessa uma crise de popularidade, comum a outros desportos que não o futebol. O que podem fazer clubes e dirigentes? Está a modalidade condenada à extinção? Certamente que não, é preciso ter ideias e iniciativas. Vejamos alguns bons exemplos, e antes disso vamos tentar compreender como chegámos até aqui.


Mediatização do futebol. À medida que o desporto-rei, como antigamente era chamado antes de passar a ser o único, se tornou mais e mais profissionalizado, os meios humanos, financeiros e técnicos envolvidos na sua divulgação tornaram-se maiores e maiores. Isso trouxe mais interesse, que por sua vez trouxe mais lucros, gerando uma bola de neve que se auto-alimenta. Menos espaço para outros desportos.
Mudança tecnológica. É um facto que o hóquei, há 20 anos atrás, não era visualmente tão apelativo para a TV. O hóquei cresceu no tempo da rádio e da presença do adepto no pavilhão, e não houve a preocupação, entre clubes e federações, de pensar a mudança. Fruto, também, do amadorismo prevalecente.
Redução de praticantes. Também relacionada com o poder do futebol; e também aqui os dirigentes pouco fizeram para alimentar a dinâmica que já existia, e preparar o futuro.


Para reviver o gosto pelo hóquei, é preciso tomar a iniciativa. Algumas ideias foram postas em prática pelo Hóquei Clube de Turquel, clube sedeado numa freguesia no concelho de Alcobaça, e que foi por isso incluído na tese de mestrado do prof. José Vinagre, do ISCTE, entre os seus "12 casos de sucesso em marketing desportivo".
Profissionalismo na gestão. O HCT tem um programa de formação fortíssimo, que faz com que este seja dos clubes com maior percentagem de jogadores, formados na casa, presente no plantel sénior. Não só é mais económico, como potencia a ligação dos adeptos ao clube, que sentem que aquela é mesmo a sua equipa, são os seus jogadores que estão ali. (Para além da possibilidade de exportação para os clubes maiores, que se aplica aos mais pequenos como o HCT.) Isto para não falar na organização relativa às camadas jovens, ao desporto feminino, às restantes modalidades do clube, às iniciativas fora de época como o Torneio da Páscoa, ao investimento feito na remodelação das instalações e na área envolvente, etc., etc.
Envolver os adeptos. Numa altura em que a média de assistências decrescia, o clube mudou de estratégia. Entradas grátis. Voltar a criar a dinâmica de levar as pessoas ao pavilhão. Juntamente com isso, ideias simples como a colocação de outdoors pela freguesia, para que as pessoas não esquecerem a data e hora dos jogos, e mais que isso, uma ideia de envolvência: o clube está vivo, está actualizado, está a chamar os adeptos ao pavilhão.
Presença na net. Sim, um clube de uma pequena freguesia transmite, na sua própria TV online, os seus jogos para todo o mundo. O Twitter e o Facebook também estão sempre actualizados, para não falar no próprio website, claro, o mais "tradicional" dos meios online!
Tudo isto resultou em pavilhões cheios - de fazer inveja a vários clubes da Primeira Liga de futebol, pois uma freguesia de 5000 habitantes tem assistências médias de 1500 pessoas - e sucesso desportivo. Voltou também o orgulho dos adeptos no seu clube, na forma como, sem muitos meios mas com muita vontade e boas ideias, se faz do clube - muito mais do que um clube, como dizem.


O que podem os clubes grandes fazer? O FC Porto teve uma ideia tão brilhante como óbvia ao construir o seu novo pavilhão, o Dragão Caixa, ao lado do estádio, o que ajuda os adeptos a identificarem-se com as suas equipas de pavilhão no espaço que já é o seu. Mas os salários em atraso, que levaram Reinaldo Ventura a ter de ir ganhar a vida noutro lado, são um indicador do desinteresse relativo em relação à modalidade. É preciso que todos, pequenos e grande, sigam o exemplo, adaptem as ideias do HCT à sua realidade, para que o hóquei continue vivo.