Disputa-se este fim de semana o Grande Prémio de Abu Dhabi, o último da época de Fórmula 1 de 2014. A grande decisão entre os dois pilotos da Mercedes, Lewis Hamilton e Nico Rosberg, surge alimentada pela pontuação a dobrar desta prova: regra inédita em 60 anos de F1 e que será certamente abandonada para ano. E embora muitos sintam que Hamilton já merecia ir para Abu Dhabi como campeão e que a regra é artificial e injusta, não é por causa dela que o britânico ainda tem de pontuar.

Hamilton venceu o dobro das corridas de Rosberg (10 contra 5) e mostrou-se mais rápido e agressivo na parte final do campeonato, com 5 vitórias consecutivas. Contudo, Hamilton foi claramente batido na última prova, do circuito brasileiro de Interlagos, pelo seu colega de equipa. Se tivesse vencido, a sua vantagem seria de 31 pontos; assim, é de apenas 17.

Isto significa que, para Hamilton, os pontos a dobrar na última prova não fazem muita diferença. Se Hamilton tivesse conseguido a sexta vitória consecutiva e levasse 31 pontos de vantagem, poderia argumentar que já seria campeão em situação "normal" e que só os pontos a dobrar (50 pontos para o vencedor) ainda dariam hipótese ao colega de equipa. Assim, mesmo sem os pontos a sobrar, Hamilton nunca poderia ir como campeão para o Médio Oriente, pois a vitória vale 25 pontos. Teria sempre de fazer pelo menos 8 pontos (ou seja, ser sexto) em caso de vitória de Rosberg. Com a regra de pontos a dobrar, precisa de ser segundo - o que, com a actual superioridade da Mercedes, é um objectivo razoável de se pedir a um campeão. 

Muitos dizem que a verdade desportiva do campeonato fica prejudicada se Hamilton tiver um furo ou um problema mecânico. Mas isso só seria "culpa" dos pontos a dobrar se realmente Hamilton tivesse os tais 31 pontos de vantagem. Aí, ficaríamos com a sensação que só a regra "maldita" ainda aguentava a candidatura de Rosberg. Desta forma, o que "legitima" Rosberg a disputar ainda o título, além da sua consistência ao longo do ano, é mesmo a sua vitória no Brasil, o seu grito de "ainda não está tudo perdido". Da mesma forma, o que "legitima" Hamilton a precisar apenas de dois segundos lugares nas duas últimas provas é a sua série de 5 vitórias consecutivas.

E quanto ao furo ou falha mecânica, o problema não está nos pontos a dobrar mas no facto de a pontuação de todas as corridas contar para o campeonato.

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Esta regra foi implementada em 1991 e o próprio Ayrton Senna, à data, alertou que se corria esse risco, de um furo decidir um campeonato. Desde então, o desporto tem vivido bem com isso. Mas será hora de aproveitar a extinção dos pontos a sobrar para voltar ao sistema anterior a 1991, de "deitar fora" os piores resultados da época? #Automobilismo

A regra de pontos a dobrar é artificial e tola, e deve ser extinta, mas não é por causa dela Rosberg ainda pode ser campeão. Se Hamilton não for segundo e o alemão ganhar a corrida, será também o campeão de 2014 com toda a justiça.