Ajude a Ilha do Fogo. Foram as palavras que Kuca, de seu nome Jaílton Alves Miranda, mostrou ao público e às televisões quando despiu a camisola do Estoril-Praia depois de marcar um golo. Natural de Cabo Verde, Kuca marcou mesmo o único golo da vitória do Estoril sobre o Vitória de Setúbal, no passado sábado. E foi na celebração desse golo que Kuca lembrou a Portugal a situação dramática que se vive na ilha do Fogo, em virtude da erupção do vulcão da ilha que já destruiu as duas aldeias mais próximas e ameaça continuar a causar danos. Mas isso valeu-lhe uma multa de 3825 euros por parte da Federação. 


Foi, mais propriamente, o Conselho de Disciplina que decidiu esta semana a aplicação desta sanção a Kuca. O artigo 161.20 proíbe que os jogadores tenham mensagens por baixo da camisola - certamente numa reminiscência do golpe publicitário protagonizado por Mário Jardel, no tempo em que jogava no Sporting. Recorde-se que o ponta-de-lança brasileiro, ao longo de várias jornadas, despia a camisola leonina e exibia a mensagem "o que será?", até mais tarde concretizar a mensagem com "será do guaraná?". 


Neste caso, não há qualquer mensagem comercial, religiosa ou política. Se o Conselho de Disciplina tem de aplicar a multa conforme o artigo, poderia encontrar uma forma de aplicar uma pena suspensa, tendo em atenção a natureza da mensagem. Ou, melhor ainda: o próprio Conselho de Disciplina poderia instar, quiçá, a Federação Portuguesa de Futebol a assumir a despesa da multa e a remetê-la directamente para o governo de Cabo Verde, ou governo local da Ilha do Fogo ou uma instituição que esteja no terreno a ajudar as vítimas. E talvez a interpretação de um regulamento pudesse, por um dia, ceder o lugar a algo que é infinitamente mais importante.


Tudo isto parece irreal ou impossível, mas não é. Basta que os adeptos de futebol portugueses, que são quem paga a Federação e tudo o que gira à volta do futebol - e muitos criticam, nas redes sociais, o salário auferido por Fernando Santos enquanto seleccionador - ergam a sua voz e exijam aos responsáveis do futebol que corrijam esta situação lamentável.