O desporto automóvel existe há quase 100 anos e estabeleceu o seu formato actual, com um campeonato de várias corridas em que se somam os pontos no final do ano, em 1950. E na história desta Fórmula 1, provavelmente nenhum duelo foi tão apetecível como o que protagonizaram Ayrton Senna e Alain Prost entre 1988 e 1993. Parte da crise de identidade que a Fórmula 1 actual vive passa pela sensação, partilhada por todos os fãs com mais de 30 anos de idade, que alguma coisa se perdeu desde esse tempo. E nem a rivalidade acesa entre dois pilotos muito competentes e com personalidade própria e independente, como foram Rosberg e Hamilton este ano, conseguiu atenuar essa ideia.


Alguns dizem que era o piloto que tinha mais controlo sobre o carro, outros que os dois pilotos em questão eram realmente fora de série. Muitos recordam que Senna e Prost (e especialmente o brasileiro) eram mais carismáticos que os pilotos actuais. Muitos já esqueceram também as críticas que se abateram sobre ambos os pilotos pelas suas condutas agressivas em pista, e que fizeram com que dois campeonatos (1989 e 1990) fossem decididos com acidentes entre ambos - situação inédita e não repetida, pois Schumacher e Hill só o fizeram uma única vez. Quanto aos factos e às estatísticas, o que é mesmo certo é que no período entre 1988 e 1993 estes dois pilotos foram claramente os mais bem sucedidos do pelotão, e ficou claro que eram também os melhores do seu tempo. 


A própria forma como competiram apresentou-se em formato de lenda. Prost era bicampeão na McLaren quando Senna (5 anos mais novo) chegou à equipa em 1988, e conseguiu batê-lo para o campeonato - e até hoje nunca mais uma equipa conseguiu vencer todas as corridas num ano, menos uma. E logo nesse ano a rivalidade tornou-se intensíssima. Em 1989, pior: ambos deixaram de se falar e, depois do choque em Suzuka que deu o título a Prost, o francês saiu para a Ferrari. 1990, terceiro ano seguido com os dois a monopolizar pódios e vitórias, e com mais um choque em Suzuka, agora com o sucesso de Senna. 1991 e 1992 foram anos de acalmia na rivalidade em pista: a Ferrari "desapareceu" em 91 e Prost optou por um ano sabático em 1992. E Senna, que "sacou" o título de 91 e espalhava magia nas pistas, em 92 reclamava nas conferências de imprensa do facto de Prost assinar um contrato com a nova equipa dominante - a Williams-Renault - que lhe permitia vetar o nome do colega de equipa. Em 1993 Prost voltou e levou o campeonato de forma brilhante para quem já tinha 38 anos, mas num ano em que Senna assinou algumas das melhores performances da sua carreira e da história do desporto. No fim, Prost retirou-se e os dois ficaram... amigos. Prost foi o único piloto que conseguiu igualar Senna enquanto colega de equipa em toda a sua carreira - e o contrário é igualmente verdade, o que demonstra bem as capacidades de ambos.  


Passados já os tempos de Schumacher, a Fórmula 1 mostrou em 2014 uma grande quebra de audiências. No momento actual, e pela primeira vez, está a questionar-se seriamente o papel de Ecclestone à frente deste negócio. De alguma forma, todas as gerações actuais olham para os tempos de Senna e Prost como uma "idade de ouro" que os pilotos actuais não conseguem reproduzir. Será porque os motores turbo não fazem barulho? Por existirem demasiadas ajudas às ultrapassagens? Porque é que novos e velhos se revêem no fascínio do futebol, e deixaram de o fazer com a Fórmula 1? A pergunta precisa de resposta urgente dos responsáveis.
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