John Barnes brilhou com as camisolas do Liverpool e da selecção inglesa nas décadas de 80 e 90. Extremo canhoto e irreverente, decidiu enveredar pela carreira de treinador depois de pendurar as botas. Após a estreia ao comando do Celtic de Glasgow no final do milénio, Barnes agarrou durante dois anos o posto de seleccionador no seu país natal, a Jamaica, seguindo-se então uma curta passagem pelo banco do Tranmere Rovers, em 2009. Desde então, não voltou a treinar. E diz agora que dificilmente o vai voltar a fazer.

O problema é, segundo afirma o ex-internacional, o racismo: Barnes diz que os técnicos brancos têm mais oportunidades e acusa os responsáveis do #Futebol de olharem de forma desconfiada para os treinadores negros. "Um treinador de raça branca perde o seu emprego mas rapidamente lhe oferecem outro. Poucos técnicos negros podem ser despedidos e ter logo outra oportunidade", acusou Barnes num documentário que será exibido esta semana na ITV.

Publicidade
Publicidade

Uma questão que o ex-jogador diz ser transversal à sociedade. "Quantas pessoas de raça negra estão nos escalões mais altos de qualquer indústria? Podemos falar do jornalismo, da política... porque é que no futebol haveria de ser diferente?", deixa no ar.

Uma rápida pesquisa pelas redes sociais mostra que existem muitos a achar que o jogador está a usar um "race card", desculpando as suas más prestações como treinador com uma discriminação que, segundo estes internautas, não existe. Nada de novo, no entanto, para John Barnes, que hoje em dia é um dos principais ícones da luta contra este problema em Inglaterra. Um dos primeiros negros a jogar pela selecção dos Três Leões, que representou por 79 ocasiões (11 golos marcados), John Barnes foi desde cedo vítima de atitudes racistas por parte dos próprios adeptos britânicos.

Publicidade

Na memória fica o dia em que a Inglaterra venceu por 2-0 o Brasil no Estádio Maracanã, em 1984. No início da sua carreira na selecção, e numa altura em que ainda representava o Watford, Barnes marcou o segundo depois de fintar meia equipa canarinha. No entanto, muitos ingleses diziam ter vencido o Brasil pela margem mínima, dizendo que aquele golo (que hoje entra na discussão dos melhores da história daquela selecção) "não contava", apenas devido à cor da pele do jogador que o tinha marcado.

Kick It Out apoia Barnes e espera "Regra de Rooney" em breve

As declarações de Barnes já receberam o apoio da associação contra o racismo Kick It Out, criada pela FIFA para combater aquele que é um dos maiores problemas que o futebol (como a sociedade) enfrenta actualmente. Em comunicado publicado no seu website, a Kick It Out alertou para o facto de serem apenas 6 os treinadores de cor negra ou pertencentes a etnia minoritária - "Black and Minority Ethnic" (BME) é o termo utilizado - nos 92 clubes associados à Federação Inglesa.

Publicidade

A organização aproveitou também para reforçar uma das suas principais ideias, que deverá estar próxima de ser concretizada pela Football Association: a implementação da chamada "regra de Rooney" no futebol. Esta lei, patente na liga profissional de futebol americano dos EUA (NFL), obriga a que todas as equipas entrevistem uma percentagem de candidatos pertencentes a minorias étnicas (a tal designação de 'BME') para o cargo de treinador e outros altos postos de chefia.