José Azevedo, campeão europeu de corta-mato e pista coberta, natural de Pedome, começou a sua carreira aos 18 anos, bastante tarde para o que é normal num atleta campeão. Tudo começou numa brincadeira, na mítica Famalicão - Joane. Durante anos correu em atletismo normal, sendo um atleta com excelentes resultados e com chamadas à selecção nacional, com os jogos olímpicos de 2016 cada vez mais perto. Mas uma lesão grave e o constante assédio dos responsáveis pela Federação Paralímpica fizeram-no repensar toda a carreira, e abraçar a modalidade paralímpica de INAS. Só que agora já não tem armário para tantas medalhas. Fomos conhecê-lo durante uma tarde passada no Parque da Devesa, em Famalicão.


Este Parque da Devesa está qualquer coisa, não?
O Parque é lindo, foi das melhores coisas que cá se fez. Aliás, acho que é a obra mais bonita que se fez em Famalicão, mas não dá para construir aqui um estádio, que tenha uma pista de atletismo.


Pois. Falta uma pista de atletismo em Famalicão...
Não há. Eu tenho de ir à Póvoa de Varzim ou à Maia, para treinar em pista. Estamos a falar de Famalicão, que é um dos concelhos com mais clubes de atletismo em Portugal. Não quero pressionar a Câmara, que está a fazer um esforço, mas é uma necessidade. Os clubes estão a deslocar-se para muito longe, e era necessário reduzir os custos de combustível.


Mas o atletismo é popular em Famalicão?
Acho que não, as modalidades estão distantes do povo, toda a gente gosta do FC Famalicão, e de outros clubes de futebol, que é o desporto-rei de Famalicão.


Culpa da imprensa ou do povo?
Do povo. Mas não me posso queixar, têm saído muitas noticias sobre mim e as pessoas quando me vêem dão-me os parabéns. É sinal que os meus resultados estão a vista e são divulgados, e fico grato por isso. Só que fui campeão europeu, e houve muito mediatismo, mas quando sou campeão regional ninguém liga.


Regional não será propriamente Europeu.
Mas a nossa região tem atletas de alto calibre, até a nível concelhio, há aqui grandes atletas. Eu este ano não fui campeão concelhio, e fui campeão europeu (risos). 


Mas diz que o atletismo não é popular. Como define a relação entre esse desporto e a cidade?

Posso-lhe dizer que é uma escola de atletismo. Estamos a falar de grandes talentos que saem daqui. Há empenho, paixão, muita paixão pelo atletismo. Muitos têm o sonho dos jogos olímpicos, que é o patamar maior de um atleta, mas sei, e continuo a dizer, que a maioria não tem condições para isso, mas agarram-se com unhas e dentes ao que têm, e lutam por isso. É uma pena não haver mais apoio, mas ganhámos títulos. A primeira prova que ganhei, foi no corta-mato de Arco de Valdevez, com chuva, muita lama, um corta-mato à britânica, onde passei para primeiro na parte final. A partir daí foram sempre bons resultados.



Com tantos clubes de atletismo, nunca pensaram em juntar um clube forte em Famalicão?

Já pertenci a dois clubes de Famalicão... (risos) e posso dizer que neste concelho, é complicado, porque há muita rivalidade. Chega ao ponto de haver mais rivalidade no atletismo do que no futebol. E estou a falar a sério, há uma grande competição entre a Escola Rosa Oliveira e o Liberdade FC, isto em termos de conquista de títulos, mas há outros clubes com rivalidades de outro sentido, mas não vou falar nisso (risos).

Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui, onde é abordada a carreira de José Azevedo, e a sua passagem para atleta paralímpico.