De um dia para o outro, acabou o BES e surgiu o Novo Banco. Surgiu também um Banco Mau, que desapareceu das notícias, e o dr. Salgado passou pela humilhação de ser detido. A nova gestão de Vítor Bento está a "pegar o boi pelos chifres", como diz o povo. Há pelo menos 3 pontos de vista sobre o caso Banco Espírito Santo: um vergonha, uma esperança, um sucesso.

Vergonha. Que o terceiro banco português se possa envolver neste escândalo, obrigando o dr. Salgado a um périplo de pedidos de ajuda monetária (ao primeiro-ministro, a Angola, etc.); que se conheçam continuamente detalhes sobre investimentos arriscados, sobre o caso Rioforte, o Crédit Agricole francês que se diz enganado pela família Espírito Santo; tudo isto vem diminuir a credibilidade do sistema financeiro português.

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Aos olhos de um observador internacional, trata-se de mais um caso sul-europeísta, de nepotismo e má gestão familiar, parecido com a Máfia da Sicília. Mesmo que não o seja, mesmo que a gestão banqueira BES tenha 150 anos de sucesso, e que o modelo familiar tenha funcionado, essa é a imagem que passa após tanto negócio confuso - e tendo terminado com uma solução tão radical como a sua extinção.

Sinal de perigo esperança. Os detractores do Euro defendem que o BES não teria caído se não tivesse levado um "encontrão" do Banco Central Europeu, que exigiu a devolução de cerca de 10.000 milhões de euros. E que a estrutura de gestão é a mais adequada à realidade portuguesa. E, ainda, que perdemos um centro de decisão nacional. Mas, ainda que pensemos que o Euro possa ser uma barreira ao desenvolvimento, a verdade é que o BCE de alguma forma agiu em prol da estabilidade.

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Com o escudo, o dr. Salgado ter-se-ia provavelmente "safado" alegando o interesse nacional na preservação do BES. Mas, afinal, as regras do euro até podem dar-nos alguma esperança.

Sucesso. Porque o que ninguém referiu é o espantoso sucesso desta operação relâmpago. Sim, os contribuintes vão pagar. Claro, que vão surgir novas histórias e novos detalhes nos próximos anos. Mas se nos dissessem, há 6 meses, que o BES ia deixar de existir, o que diríamos que ia acontecer de seguida? Juros da dívida a subir. Pânico nos mercados, como aconteceu com o caso de Chipre. Governo a responder de forma atabalhoada, "em cima do joelho". Depositantes a correr para os multibancos. Sabe-se lá mais o quê. Mas nada disso aconteceu. Há 3 meses, o dr. Passos Coelho ignorou tranquilamente o pedido de ajuda do dr. Salgado - quando em 2008, e com um banco bem mais pequeno como o BPN, o governo receou o famoso "risco sistémico". De um dia para o outro dividiu-se o banco, mudou-se o nome, e ficou tudo na mesma.

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E até agora nem sequer ocorreram despedimentos. Os depositantes ficaram na mesma, os juros da dívida estão nos níveis mais baixos de sempre (que contraste com o ano passado, após a cena do dr. Portas!) e os problemas que há na zona euro não vê, seguramente, do sistema bancário português. Em termos de estabilidade do sistema, foi um verdadeiro sucesso que ninguém aplaudiu ou reconheceu.

Com certeza que foi mau para os accionistas, será mau para os trabalhadores se houver despedimentos, será seguramente negativo para os contribuintes. Mas a sensação que fica é que vinha um camião direito a nós, tendo conseguido travar no último minuto e deixando apenas uma mossa no pára-choques. #Negócios