Cada vez mais surgem notícias de crianças que, deixadas sozinhas em casa, desaparecem, morrem, são abusadas, etc. Agora, pergunto: De quem é a culpa? Dos pais, com certeza. Essa é a opinião de todas as pessoas que não conhecem a realidade desses pais ou que nunca tenham passado por situação semelhante. Não falo de pais que saem para dançar ou fazer outras coisas impróprias. Mas daqueles que são obrigados a trabalhar dia e noite para sustentar os filhos.

Deixem-me contar-vos uma breve história real. Eu trabalhava numa firma onde havia três mulheres, todas mães de menores de 11 anos. Duas delas pediram um horário flexível, tendo a oportunidade de estarem com os filhos à noite.

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Enquanto trabalhavam as duas em locais separadas conseguiram essa flexibilidade de horário após terem dado prosseguimento ao pedido por outras vias, que não as normais. Mas quando se viam as duas na mesma firma, a que era casada passou a fazer o horário da noite e o marido ficava com os filhos, enquanto a outra, mãe solteira, fazia o horário de manhã. Tudo isso conseguido com muita luta, pois os patrões, inocentes e alheios aos problemas dessas senhoras, não quiseram facilitar. Ao terceiro elemento, também mãe solteira, não foi concedido nenhum pedido. E como não quis ir por vias legais, continuou a fazer horário repartido. Ou seja, entrava as 11h:00m e saía as 15h:00m. Depois tornava a entrar as 18.30h:00m e saía as 22h.30m. O mais grave é que por volta das 17.30h a filha já se encontrava em casa.

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Nos dias em que os colegas do apartamento estavam de folga tomavam conta da criança. Mas quando todos tinham que ir trabalhar a criança ficava sozinha em casa, trancada no quarto a ver TV. Essa senhora não podia faltar ao trabalho, pois era ameaçada com despedimento por justa causa. Ela tinha que trabalhar para sustentar a filha e nós sabemos que o emprego não está fácil.

Sei que muitos diriam: "Ah! Eu não faria uma coisa dessas. Deixar o meu filho sozinho em casa? Nem pensar". Só gostaria de vos lembrar uma coisa: «Nunca digas nunca». A vez de cada um chega à medida que o tempo passa; esse tipo de pessoas, patrões sem coração e sem um pingo de humanidade é que não faltam. Enquanto as pessoas se calam e a lei continua a protege-los…temos que nos moldar a certas exigências para que possamos pôr um pão na mesa e sustentar as nossas crias. Basta! Vamos pôr um ponto final nisso. Nos outros países as pais trabalham sim, mas um dos elementos tem de estar sempre em casa para receber e cuidar dos filhos.

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E quando são pais solteiros há mais facilidade em termos de horário. Porquê é que aqui tem de ser diferente? Isso é algum Faroeste? Estamos no traseiro do Judas Iscariotes? Chega, homens de Deus. Vamos atribuir a culpa a quem de direito e deixem de apelar pelo óbvio, pois o óbvio não é tão óbvio assim.

Onde estava a mãe ou os pais dessas crianças de Alfragide que foram apanhados pelo fogo, quando dormiam sozinhos em casa, pondo termo a vida da mais velha? A minha irmã passou pela mesma situação. Graças a Deus tinha os irmãos por perto e sempre ajudamos da forma que podíamos. Mas nem todos têm a mesma sorte. Homens de Deus, 13anos! É demais. Com certeza que os pais serão crucificados pelo incidente, mas ninguém quererá saber se eles se viam forçados a cumprir certos horários para alimentar esses filhos. Isso não interessa, pois não? Sejamos humanos, suplico-vos, sejamos humanos e racionais. Vamos parar de ignorar e proteger os inocentes patrões. Sei que também dirão: se fores patroa um dia compreender-nos-ás. Compreender, toda a gente compreende, mas porque é que vocês optam por não nos compreender a nós, agora que é altura de tornar isso num sítio melhor para os nossos filhos? Quando passarem de patrões para empregados, aí sim, compreenderão, mas, talvez, até lá seja tarde demais.